segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

UMA VENDA SUSPENSA (ou o 4º Santo Popular)

O tremor das mãos denunciava a angústia daquele senhor idoso numa farmácia em hora de ponta.
- Ó Sra Dra, não sei onde pus a venda suspensa. Já procurei tudo e não aparece …
- Assim, não lhe posso reembolsar o medicamento. Tem que a trazer.
O medicamento era caro, mas a mulher tinha precisado dele, estava aflita. As posses não eram muitas e o dinheiro fazia falta. E agora, que já tinha a receita do médico, não aparecia a venda suspensa. Andava há uns tempos com estes esquecimentos…
- Olhe, já rezou ao Sto António?
- Ó Sra Dra, eu nem sei o responso. Dizem que é preciso rezá-lo sem se enganar…
- Não se preocupe, que eu rezo por si. Vá lá procurar melhor. Vai ver que vai aparecer.
O dia de trabalho continuou na azáfama e vai-vém habitual de clientes, até que, de tarde, o senhor da venda suspensa surgiu vitorioso exibindo o papel na mão.
- Nem sabe, Sra Dra! Mal cheguei a casa, virei-me para o santo e disse-lhe: “Ó Sto António, aquela oração que a Sra Dra sabe!” e então lembrei-me que, se calhar, a venda suspensa estava junto com os papéis do IRS. Fui ver e lá estava!
Deus e os santos interessam-se porventura por vendas suspensas? Intervêm em situações tão comezinhas da vida das pessoas? No meu quotidiano? Interessam-se por mim? Não vivem lá numa esfera superior, noutra dimensão demasiado longínqua e inacessível ao comum dos mortais? Para conseguir que nos oiçam não são precisas cerimónias complicadas e saber recitar responsos sem se enganar? No fim de contas, só umas pessoas especiais, sobredotadas como o Sto António, que viveu há muitos séculos e é famoso em todo o mundo por conseguir fazer tantos milagres, é que talvez consigam comunicar com esse universo. Uma espécie de extra-terrestres, demasiado perfeitos para pessoas como nós, que temos de nos preocupar com o trânsito, com não queimar o refogado e aguentar o mau humor do chefe.
Os santos dir-nos-iam, porém, que não é bem assim. E ficariam talvez surpreendidos, para não dizer ofendidos, por os considerarmos uns extraterrestres, quando - quanto a eles – se limitaram a activar o Baptismo que receberam, como qualquer dos cristãos. O facto de estarem em comunicação directa com Deus não o têm como algo de extraordinário: um filho normal não considera milagroso conversar ou pedir alguma coisa a seu pai… E o terem lutado para serem bons filhos durante a sua vida, será por acaso algo de insólito?
Qualquer cristão – acrescentariam - pelo facto de estar baptizado, é chamado ser um Santo, com S maiúsculo, de “Sim, Senhor! Satisfaz +++! 100%! Excelente! Parabéns!” O segredo para esse resultado é procurar manter Deus à esquerda dos nossos zeros, isto é, manter a relação, o diálogo através da oração, do trabalho – qualquer que ele seja – de todos os momentos e circunstâncias da sua vida real e concreta, corriqueira, do seu serviço aos outros. Não é real uma santidade de pessoas especiais, de tarefas ou de eventos esporádicos: “(…) a vocação cristã consiste em fazer poesia heróica da prosa de cada dia. Na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não; onde se juntam deveras é nos vossos corações, quando viveis santamente a vida de cada dia...” (S. Josemaria, Amar o mundo apaixonadamente)
Deus está perto. Não vive, lá longe, demasiado longe para estar a par dos problemas deste habitante do planetazito azul. Não. Está perto. É meu Pai, conhece-me pelo diminutivo e é parte interessada na minha preocupação por encontrar uma venda suspensa, por deitar os filhos, por conseguir pagar a prestação da casa ou por chegar a horas ao emprego. O que haverá de mais natural do que a relação com Ele? “A oração que a Sra Dra sabe!” Aquela que eu sei e que ninguém sabe melhor do que eu, aquela que é feita dos pequenos incidentes, do sorriso ou da anedota que desanuvia um ambiente de crise, do olhar, do movimento de coração que agradece ou solicita ajuda, do desejo de superação.
Muitas destas ideias, ouvimo-las há pouco da boca de Bento XVI, aquando da sua visita a Portugal e constituem, por assim dizer, o núcleo dos ensinamentos do Cristianismo, desde os seus primórdios, recordados nos nossos tempos no Concílio Vaticano II. Se todos os santos o encarnaram de um modo ou outro – o seu – um santo dos nossos tempos, S. Josemaria Escrivá “viu-o” a 2 de Outubro de 1928. “Tudo isto o viveu no meio das ocupações quotidianas, merecendo ser chamado o «santo da vida corrente». Com efeito, a sua vida e a sua mensagem ensinaram uma imensa multidão de fiéis – principalmente leigos atarefados em variadíssimas profissões – a converter os afazeres mais comuns em oração, serviço ao próximo, e caminho de santidade”. (João Paulo II, Bula da Canonização)
E como é que isso se faz? Porque não basta ter uma ideia: é preciso aprender modos concretos que se apliquem à própria situação, ter modelos, trilhar caminhos, por vezes muito esquecidos. Por isso, a vida dos santos – dos que nos precederam e dos que vivem ao nosso lado – é tão instrutiva e animadora. “Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho d’Ele”. (Bento XVI, Encontro com os Bispos de Portugal, 13/05/10)
João saltou de alegria, ainda na gravidez da mãe, ao pressentir tudo isto; Pedro, quando remendava as redes da pesca (da sardinha?!); António, dizem que tinha o bom humor de saber dialogar mesmo com os peixes, sardinhas inclusive. Festeja-se S Josemaria a 26 de Junho. Já houve quem lhe chamasse o 4º Santo Popular e não creio que desdenhasse mais uma sardinhada com arraial e martelinhos incluídos.


16/06/2010

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