" - Jesus é brincalhão?!!! Eu pensava que era muito sério.... "
Espanto do Guilherme, um dos meninos da
catequese. Recontávamos o episódio dos discípulos de Emaús (Cfr Lc, 24, 13-35),
um dos relatos mais divertidos do Evangelho (que parece nada ter a ver com o
Natal, mas entra aqui que nem uma luva…) Eles, os discípulos, todos
cabisbaixos, e Jesus vem, junta-se-lhes no caminho, e pergunta porque estão
tristes. "- Então não sabes o que aconteceu com Jesus de Nazaré?" etc, etc
" E Jesus,como se não fosse com Ele próprio: "- Que foi? " E
eles contam, contam, contam tudo...e escutam… e conversam... E Jesus a rir-se
para dentro, sem se dar a conhecer, a jogar às escondidas, até chegarem ao
cruzamento do "restaurante" (os miúdos atualizaram o relato...). Aí,
brinca de faz de conta que vai na direção oposta à dos nossos amigos
tristonhos.
"- Fica connosco, que se faz
noite..."Sabemos o resto. Ficou.
É isso que é sempre incrível: ficou! Deus veio
até este planetazito, até ao nosso restaurante de beira da estrada, até a um
estábulo....e .... Ficou!!! (- O que é um estábulo, catequista? - É a casa dos
animais, dos bois, das vacas, das ovelhas... - A sério!? E não cheirava mal?! -
Sim, cheirava mal.)
Uma amiga minha disse-me uma vez que
antropomorfizava (até custa a dizer...) Deus. Não tenho culpa! Deus fez se
Homem! Jesus é um verdadeiro ser humano e verdadeiro Deus. Ri, "brinca em
toda a superfície da terra e faz as suas delícias entre os filhos dos homens
(cfr Pr 8,31)" e suja fraldas como todos os bebés. Por isso é que, nos
presépios, tem sempre uma lavadeira à beira do rio de papel de prata. É para
lavar as fraldas de linho do Menino Jesus e pô-las a corar no rosmaninho.
(Rimou!) Assim, ficam branquinhas e a cheirar muito bem. Uma e outra vez, que
ser Deus e Homem também tem destas coisas...
A estas horas, alguém poderá estar um tudo nada
escandalizado, agastado talvez, com estas considerações tão prosaicas. Também
não tenho culpa. O cristianismo é, sem dúvida, algo sublime. Contudo, a Boa
Nova que traz e anuncia é algo de escandaloso e provocante: que Deus encarnou.
Com esta crueza, veio a este mundo com carne e ossos como os nossos. A
encarnação não tem nada a ver com o vermelho do Benfica ou do Pai Natal. Também
não significa que Jesus tivesse ficado corado, embora tivesse razões para isso,
ao ver-Se metido nestas nossas alhadas.
Daí que, para espanto do Guilherme e nosso,
esta época do Natal é ótima para contemplar o Menino Deus em qualquer bebé que
chora, ri e brinca ao nosso lado, a quem temos de embalar, mudar fraldas ou
entreter. E porque não? Em qualquer idoso ou doente a quem tenhamos de prestar
os mesmos serviços. Sem contar aquela pequenas “partidas” quotidianas em que
descobrimos a mão de um Deus que se diverte a brincar connosco.
