quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

EDUCAÇÃO DIFERENCIADA: UM MODELO EDUCATIVO PARA O SÉC XXI?

“ (…) Hoje em dia, a sociedade é cada vez mais de concorrermos todos aos mesmos lugares, às mesmas oportunidades, já não há diferença entre rapazes e raparigas no mundo do trabalho, portanto devem estar juntos desde pequeninos e acham que diferenciar é discriminar. (…) Eu acho exactamente o contrário. Eu acho que não diferenciar é que é discriminar, porque uma rapariga tem direito a aprender de acordo com os seus interesses, da mesma maneira que um rapaz. E obrigar uma rapariga a aprender da mesma maneira que obrigam o rapaz é que é discriminar”. Poderíamos concordar, mas a afirmação de umas das professoras entrevistadas no âmbito do estudo de caso de três colégios com Educação Diferenciada, base para a minha tese de investigação de mestrado em Ciências da Educação (Freitas, 2010), não deixa, de facto, de ser controversa.
A designação de Educação Diferenciada refere-se ao modelo organizacional e pedagógico que oferece um ensino básico, secundário ou pós-secundário em que rapazes e raparigas estão na escola apenas com membros do seu próprio sexo, por oposição ao conceito de Coeducação com que usualmente se designa o modelo de ensino misto.
Em Portugal, à excepção dos alunos de alguns colégios, apenas as pessoas com mais 40 anos recordam vagamente a experiência de ensino/aprendizagem com colegas e professores do seu sexo. Entretanto, e após 1974, o ensino coeducativo generalizou-se e passou a ser encarado como natural, democrático e incontornável. Mas será a Coeducação um dogma inquestionável? Recentemente, por exemplo, os EUA, através do No Child Left Behind Act e por proposta dos senadores Hillary Clinton e Kay B. Hutchison, permitiram a abertura de escolas e/ou turmas diferenciadas por género nas escolas públicas como uma forma de intervenção promotora do sucesso escolar. Uma medida polémica tendo em conta que, para muitos, diferenciar ainda é o mesmo que discriminar; que os conceitos de igualdade de oportunidades e de inclusão implicam um tratamento igualitário, neutro, tolerante e socializante dos indivíduos diferentes em presença. Mas será que é mesmo assim?
As nossas escolas e turmas reflectem uma sociedade heterogénea e multicultural. Qualquer pai, professor ou mesmo aluno/a reconhece a riqueza e potencialidades da diversidade, enquanto simultaneamente constata a dificuldade de prestar a cada pessoa a atenção pedagógica a que tem direito. Depara-se, nomeadamente, para além das características de género que a psicologia diferencial e outras disciplinas evidenciam, com o ritmo de desenvolvimento diverso entre rapazes e raparigas, notório na adolescência, e que constitui uma das causas de maior insucesso e abandono escolar no sexo masculino.
O modelo de Educação Diferenciada procura criar alguma homogeneidade nos grupos educativos de acordo com aquela que será a diferença básica entre os seres humanos - “Não há nada acima da dualidade do homem e da mulher” - afirmou Alain Touraine (1998:247)e facilitando uma formação personalizada e a gestão de conflitos e contribuindo assim para a descoberta de uma cultura feminina ou masculina, segundo os casos, ultrapassando o igualitarismo, assumindo a própria identidade e permitindo assim a comunicação. “A comunicação entre homens e mulheres é o elemento central desta recomposição do mundo onde vejo a forma principal de multiculturalismo.” (Touraine, 1998:251)
A possibilidade de dar a cada “diferente” aquilo de que tem necessidade não tem por que significar necessariamente discriminação, segregação ou desigualdade, mas uma forma diversa de justiça e de chegar à igualdade de oportunidades. Talvez, por fim, possamos também nós afirmar: “Eu acho que não diferenciar é que é discriminar”.
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Freitas, M. A. B. L. d. (2010). A Educação Diferenciada por Género: as Representações Sociais. Universidade Católica Portuguesa, Braga.
Touraine, A. (1998). Iguais e Diferentes. Poderemos viver juntos? Lisboa: Instituto Piaget.