PELA N14
PASSOU UM SANTO
Devem ter passado muitos… dir-me-á
o leitor. É verdade. Todos os dias, a todas as horas passam muitos e muitas
para o seu trabalho. Aqueles “santos da
porta ao lado” de que nos fala o Papa Francisco na Evangelium Gaudium. Pessoas boas, preocupadas com a sua família,
com os vizinhos e com todos os outros; que iniciam uma oração ao ouvir na rádio
os números do Covid 19 ou ao ver passar uma ambulância e a quem sai um palavrão
ao ter de fazer uma paragem brusca. Pessoas normais, sem auréola, nem olhos em
alvo, que têm filhos e idosos em casa, a quem protegem e a quem procuram fazer a
vida agradável. Os tais heróis e heroínas que fazem com que tudo fique bem, sem
surgirem arco-íris a chamar a atenção para eles.
Pois bem: assim como há um santo
para cada necessidade que nos poderá inspirar a tirar o melhor de nós próprios,
o “santo do quotidiano”, do
ordinário, como lhe chamou S. João Paulo II, festejamo-lo a 26 de junho, no
meio dos santos populares: S. Josemaria Escrivá. Como se afirma numa oração bem
conhecida de muitos, foi “instrumento fidelíssimo para fundar o Opus Dei,
caminho de santificação no trabalho profissional e no cumprimento dos deveres
quotidianos do cristão” e pode-se pedir o seguinte: ”fazei que eu saiba também
converter todos os momentos e circunstâncias da minha vida em ocasião de Vos amar,
e de servir com alegria e com simplicidade a Igreja, o Romano Pontífice e as
almas, iluminando os caminhos da terra com a luz da fé e do amor”.
Recordam também decerto os versos
de muitos cânticos do Pe. Henrique Faria, antigo pároco de Ribeirão, como este:
“Tomai e recebei as horas do meu dia/alegrias e dores, penas e trabalhos…”,
claramente inspirados na mensagem de S. Josemaria. É apenas um pequeno exemplo
de como uma vida pode inspirar algo tão caro como estes versos e música ou como
a obra social que se faz nessa freguesia, sem desmerecer outras, ou o trabalho
normal de cada um e de cada uma.
Acontece que, por várias vezes, S.
Josemaria passou pelo concelho de Vila Nova de Famalicão e nomeadamente pela N14 que, à data, era a
estrada quase obrigatória para quem de dirigia ao sul. Ressalto a N14, por ser
hoje a artéria, entrada e saída do Minho, onde se concentra grande parte da
força produtiva famalicense e que agora possui mais 4 rotundas que precisam de
uma designação toponímica. Porque não colocar um nome que já é ou pode ser
inspirador para tantos trabalhadores famalicenses que a atravessam penosamente
todos os dias?
Agora, a fundamentação histórica: segundo
o seu biógrafo português[1], S. Josemaria Escrivá
esteve por doze vezes em Portugal, entre 1945 e 1972, com o objetivo de dar a
conhecer aos bispos portugueses esse caminho de santificação no trabalho
profissional. Como é sabido, a sua primeira entrada em Portugal, a 5 de fevereiro
de 1945, (sem passaporte, como um português, gostava de salientar...) foi-lhe
facultada pela irmã Lúcia, a pastorinha de Fátima, então doroteia em Tuy. Saiu
de manhã, segunda feira, acompanhado pelo beato Álvaro del Portillo, o bispo de
Tuy, o seu secretário e o motorista. Entraram pela ponte Eiffel de Valença do
Minho, passaram em Viana do Castelo e almoçaram no Porto. Seguiram para Fátima,
Lisboa e Coimbra e regressaram a Tuy. Mas, e tendo sempre em conta o mapa de
estradas de 1945, as passagens pela N14 não terão ficado por aqui: de 16 a 19
de junho do mesmo ano repetiu sensivelmente o mesmo trajeto e na viagem de 17 a
22 de setembro, embora tenha entrado em Portugal por Elvas, também saiu pela
fronteira de Valença do Minho. Mas logo a 23 terá regressado a Portugal e
dormido em Braga, pois no dia 24 de manhã, segundo recordava o beato Álvaro del
Portillo, celebraram a Santa Missa na Sé. Depois de um périplo pelo Porto,
Coimbra e Arganil onde conversa com o bispo da cidade do Mondego, no dia 27, no
regresso a Vigo, para novamente em Braga onde visita o Santuário do Bom Jesus.
Um ano depois, exatamente a 5 de
fevereiro de 1946, começava em Portugal o trabalho do Opus Dei que viria a
inspirar a obra dos párocos de Ribeirão, Esmeriz, Louro, Joane, para citar apenas
alguns, e através deles a de tantos famalicenses que também continuam a
precisar de paciência para passar todos os dias nas rotundas (ainda sem nome) e
parar nos semáforos da N14.
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1. Azevedo,
H., Primeiras viagens de S. Josemaria a
Portugal (1945). Studia et Documenta, 2007. I: p. 15-39.
Maria Amélia Freitas







