quinta-feira, 2 de julho de 2020

Por uma rotunda na N14!


PELA N14 PASSOU UM SANTO

Devem ter passado muitos… dir-me-á o leitor. É verdade. Todos os dias, a todas as horas passam muitos e muitas para o seu trabalho. Aqueles “santos da porta ao lado” de que nos fala o Papa Francisco na Evangelium Gaudium. Pessoas boas, preocupadas com a sua família, com os vizinhos e com todos os outros; que iniciam uma oração ao ouvir na rádio os números do Covid 19 ou ao ver passar uma ambulância e a quem sai um palavrão ao ter de fazer uma paragem brusca. Pessoas normais, sem auréola, nem olhos em alvo, que têm filhos e idosos em casa, a quem protegem e a quem procuram fazer a vida agradável. Os tais heróis e heroínas que fazem com que tudo fique bem, sem surgirem arco-íris a chamar a atenção para eles.
Pois bem: assim como há um santo para cada necessidade que nos poderá inspirar a tirar o melhor de nós próprios, o “santo do quotidiano”, do ordinário, como lhe chamou S. João Paulo II, festejamo-lo a 26 de junho, no meio dos santos populares: S. Josemaria Escrivá. Como se afirma numa oração bem conhecida de muitos, foi “instrumento fidelíssimo para fundar o Opus Dei, caminho de santificação no trabalho profissional e no cumprimento dos deveres quotidianos do cristão” e pode-se pedir o seguinte: ”fazei que eu saiba também converter todos os momentos e circunstâncias da minha vida em ocasião de Vos amar, e de servir com alegria e com simplicidade a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, iluminando os caminhos da terra com a luz da fé e do amor”.
Recordam também decerto os versos de muitos cânticos do Pe. Henrique Faria, antigo pároco de Ribeirão, como este: “Tomai e recebei as horas do meu dia/alegrias e dores, penas e trabalhos…”, claramente inspirados na mensagem de S. Josemaria. É apenas um pequeno exemplo de como uma vida pode inspirar algo tão caro como estes versos e música ou como a obra social que se faz nessa freguesia, sem desmerecer outras, ou o trabalho normal de cada um e de cada uma.
Acontece que, por várias vezes, S. Josemaria passou pelo  concelho de Vila Nova de Famalicão e nomeadamente pela N14 que, à data, era a estrada quase obrigatória para quem de dirigia ao sul. Ressalto a N14, por ser hoje a artéria, entrada e saída do Minho, onde se concentra grande parte da força produtiva famalicense e que agora possui mais 4 rotundas que precisam de uma designação toponímica. Porque não colocar um nome que já é ou pode ser inspirador para tantos trabalhadores famalicenses que a atravessam penosamente todos os dias?
Agora, a fundamentação histórica: segundo o seu biógrafo português[1], S. Josemaria Escrivá esteve por doze vezes em Portugal, entre 1945 e 1972, com o objetivo de dar a conhecer aos bispos portugueses esse caminho de santificação no trabalho profissional. Como é sabido, a sua primeira entrada em Portugal, a 5 de fevereiro de 1945, (sem passaporte, como um português, gostava de salientar...) foi-lhe facultada pela irmã Lúcia, a pastorinha de Fátima, então doroteia em Tuy. Saiu de manhã, segunda feira, acompanhado pelo beato Álvaro del Portillo, o bispo de Tuy, o seu secretário e o motorista. Entraram pela ponte Eiffel de Valença do Minho, passaram em Viana do Castelo e almoçaram no Porto. Seguiram para Fátima, Lisboa e Coimbra e regressaram a Tuy. Mas, e tendo sempre em conta o mapa de estradas de 1945, as passagens pela N14 não terão ficado por aqui: de 16 a 19 de junho do mesmo ano repetiu sensivelmente o mesmo trajeto e na viagem de 17 a 22 de setembro, embora tenha entrado em Portugal por Elvas, também saiu pela fronteira de Valença do Minho. Mas logo a 23 terá regressado a Portugal e dormido em Braga, pois no dia 24 de manhã, segundo recordava o beato Álvaro del Portillo, celebraram a Santa Missa na Sé. Depois de um périplo pelo Porto, Coimbra e Arganil onde conversa com o bispo da cidade do Mondego, no dia 27, no regresso a Vigo, para novamente em Braga onde visita o Santuário do Bom Jesus.
Um ano depois, exatamente a 5 de fevereiro de 1946, começava em Portugal o trabalho do Opus Dei que viria a inspirar a obra dos párocos de Ribeirão, Esmeriz, Louro, Joane, para citar apenas alguns, e através deles a de tantos famalicenses que também continuam a precisar de paciência para passar todos os dias nas rotundas (ainda sem nome) e parar nos semáforos da N14.
______________________
1.            Azevedo, H., Primeiras viagens de S. Josemaria a Portugal (1945). Studia et Documenta, 2007. I: p. 15-39.

Maria Amélia Freitas

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Quando Deus brinca e usa fraldas



- Jesus é brincalhão?!!! Eu pensava que era muito sério.... "

Espanto do Guilherme, um dos meninos da catequese. Recontávamos o episódio dos discípulos de Emaús (Cfr Lc, 24, 13-35), um dos relatos mais divertidos do Evangelho (que parece nada ter a ver com o Natal, mas entra aqui que nem uma luva…) Eles, os discípulos, todos cabisbaixos, e Jesus vem, junta-se-lhes no caminho, e pergunta porque estão tristes. "- Então não sabes o que aconteceu com Jesus de Nazaré?" etc, etc " E Jesus,como se não fosse com Ele próprio: "- Que foi? " E eles contam, contam, contam tudo...e escutam… e conversam... E Jesus a rir-se para dentro, sem se dar a conhecer, a jogar às escondidas, até chegarem ao cruzamento do "restaurante" (os miúdos atualizaram o relato...). Aí, brinca de faz de conta que vai na direção oposta à dos nossos amigos tristonhos.

"- Fica connosco, que se faz noite..."Sabemos o resto. Ficou.

É isso que é sempre incrível: ficou! Deus veio até este planetazito, até ao nosso restaurante de beira da estrada, até a um estábulo....e .... Ficou!!! (- O que é um estábulo, catequista? - É a casa dos animais, dos bois, das vacas, das ovelhas... - A sério!? E não cheirava mal?! - Sim, cheirava mal.)

Uma amiga minha disse-me uma vez que antropomorfizava (até custa a dizer...) Deus. Não tenho culpa! Deus fez se Homem! Jesus é um verdadeiro ser humano e verdadeiro Deus. Ri, "brinca em toda a superfície da terra e faz as suas delícias entre os filhos dos homens (cfr Pr 8,31)" e suja fraldas como todos os bebés. Por isso é que, nos presépios, tem sempre uma lavadeira à beira do rio de papel de prata. É para lavar as fraldas de linho do Menino Jesus e pô-las a corar no rosmaninho. (Rimou!) Assim, ficam branquinhas e a cheirar muito bem. Uma e outra vez, que ser Deus e Homem também tem destas coisas...

A estas horas, alguém poderá estar um tudo nada escandalizado, agastado talvez, com estas considerações tão prosaicas. Também não tenho culpa. O cristianismo é, sem dúvida, algo sublime. Contudo, a Boa Nova que traz e anuncia é algo de escandaloso e provocante: que Deus encarnou. Com esta crueza, veio a este mundo com carne e ossos como os nossos. A encarnação não tem nada a ver com o vermelho do Benfica ou do Pai Natal. Também não significa que Jesus tivesse ficado corado, embora tivesse razões para isso, ao ver-Se metido nestas nossas alhadas.


Daí que, para espanto do Guilherme e nosso, esta época do Natal é ótima para contemplar o Menino Deus em qualquer bebé que chora, ri e brinca ao nosso lado, a quem temos de embalar, mudar fraldas ou entreter. E porque não? Em qualquer idoso ou doente a quem tenhamos de prestar os mesmos serviços. Sem contar aquela pequenas “partidas” quotidianas em que descobrimos a mão de um Deus que se diverte a brincar connosco.

domingo, 3 de novembro de 2013

Hotspots para Deus

 - Ele é um hotspot para Deus! – saiu-se um dos meus sobrinhos num dos almoços de domingo acerca de uma pessoa nossa conhecida, sem que tal expressão parecesse um insulto ou crítica.
 – Ele é um quê?!
- Sim! Um hotspot! Não sabes um que é um hotspot, uma zona wi fi, um router?
E tentou explicar-me, como se eu fosse muito infoexcluída:
- Nunca viste nos centros comerciais, nas universidades? Tu chegas lá e está indicado “zona wi fi” ou “hotspot” de tal empresa e basicamente podes ligar-te à net grátis com o teu computador, telemóvel, tablet, play station….  Essa tal pessoa é como um hotspot para Deus.
É. Parece incrível, mas de facto existem pessoas que nos ligam automática e insensivelmente a Deus: o Papa, um pároco, uma avó, um/a catequista, um/a amigo/a e talvez não precisamente por essa ordem. Não é que não tenham defeitos ou sejam um modelo de virtudes ou passem a vida a pregar. Não. São pessoas em quem nós reconhecemos que têm experiência de como é Deus e que desejam que também nós O procuremos e encontremos. Instintivamente, sabemos que rezam por nós e, se temos oportunidade, já estamos a contar-lhes a nossa vida toda.
São pessoas a quem recorremos para desabafar, tirar uma dúvida, pedir um conselho, um favor, que reze por um assunto que nos preocupa ou nos ensine a fazê-lo. É como se emitissem um sinal wi fi: um misto de interesse, carinho, compreensão, de escuta, acolhimento, esperança que torna Deus acessível sem necessidade de passwords. O sinal wi fi pode ser bom, fraco ou ruim, médio, excelente, com ou sem intermitências, de acordo com a qualidade do hotspot..
Os santos estão assinalados como hotspots com sinal potente e contínuo. Porquê? Porque estão ao rubro na arte de amar e são reconhecidos por isso. Alguns deles universalmente e o seu raio de ação não está limitado pelo espaço ou pelo tempo. Basta pensar no nosso António de Lisboa que viveu na Idade Média e continua a influenciar a vida de pessoas de todos os continentes, tanto ou mais que o seu amigo Francisco de Assis.
Mas para todos nós, está nas nossas mãos ser hotspots para Deus: basta ligarmo-nos a esse “Fogo que arde sem se ver” de que falava Camões. Entrar na rede. Quem se encanta, fica encantador. E começa logo a emitir esse sinal imitando aquilo que viu e ouviu.

No dia de Todos os Santos, lembremo-nos afinal de todos esses hotspots, uns mais conhecidos outros menos, muitos da nossa própria família, alguns com um nome igual ao nosso, outros que passam por nós todos os dias e que vão estabelecendo esses oásis onde o Céu fica mais perto. Vale a pena saber onde estão, reconhecê-los, aproveitar a acessibilidade que nos proporcionam e a sua ajuda e exemplo para nos tornarmos também nós hotspots para Deus.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

E SE NOS LEVANTÁSSEMOS?

Por vezes um anúncio faz surgir em nós reflexões inesperadas. É esse um dos objetivos do marketing e já se sabe que, no caso desta campanha contra o sedentarismo, a ideia é vender mais refrigerante. Mas a pergunta não deixa de incluir um certo acento de revolta contra o status quo capaz de provocar consequências imprevisíveis a níveis insuspeitados.
E se de facto começássemos por nos desprender dessas inúmeras cadeiras que nos tiranizam e nos impedem de sermos nós próprios a ir atender um telefone que está a tocar há séculos e ninguém se decide a levantar? Desses sofás em que nos enterramos horas a ver uma televisão improcedente em vez de ir arrumar a cozinha, fazer o café, ajudar a levantar a mesa ou simplesmente ir dormir que o nosso mal é sono? Do assento do carro, para fazer uma caminhada e ter aquela conversa com um filho ou um amigo; do lugar no autocarro – seja ele à janela ou na coxia - para o ceder a alguém mais idoso, carregado ou simplesmente necessitado?
São pequenas coisas corriqueiras e habituais. Frequentes. Reais. Concretas. Acessíveis, apesar de nem sempre fáceis. Ocasiões de fazer a diferença, de alterar estatísticas, de alterar o ambiente, de viver valores como o Serviço, a Generosidade, o Auto-Domínio, a Amizade, o Respeito e tantos outros, de oferecer gratuitamente o presente de um pouco mais de atenção a quem está ao lado.
O fundador do Opus Dei, S. Josemaria Escrivá, o “santo da vida corrente” como lhe chamou João Paulo II e que festejamos a 26 de junho, recordava que não havíamos de fazer como Tartarin de Tarascon que desejava matar leões… nos corredores da própria casa. Isto é: situações extraordinárias, poucas vezes se apresentarão na nossa vida; o nosso é viver o ordinário, o quotidiano de forma extraordinária, sobrenatural. Fazemo-lo quando nos levantamos acima de nós próprios e atuamos como filhos de Deus e por amor do nosso Pai. Assim corresponde o cristão à sua identidade batismal: deixando-se levantar às alturas da santidade.
A vocação de qualquer de nós à santidade, a subir mais alto, a “ser mais altos, ser maiores”, na feliz expressão de Florbela Espanca, constitui o núcleo fundamental do magistério do Concílio Vaticano II e, por ter dito o mesmo desde 1928 e mostrado como se punha em prática, S. Josemaria Escrivá de Balaguer foi unanimemente reconhecido como um precursor do Concílio.
Como afirmou João Paulo II em 2002, “a fábrica, o escritório, a biblioteca, o laboratório, a oficina, o lar podem transformar-se em outros tantos lugares de encontro com o Senhor, que escolheu viver durante trinta anos na obscuridade. Poderia, porventura, pôr-se em dúvida que o período passado por Jesus em Nazaré fosse já parte integrante da sua missão salvífica? Portanto, também para nós, o quotidiano, na sua aparente uniformidade, na sua monotonia feita de gestos que parecem repetir-se sempre na mesma, pode adquirir o relevo de uma dimensão sobrenatural e ser transformado desse modo”.
Transcrevo alguns pontos de 2 livros conhecidos de S. Josemaria: «Tens obrigação de te santificar. - Tu, também. (...) A todos, sem exceção, disse o Senhor: 'Sede perfeitos como Meu Pai Celestial é perfeito'» (Caminho, n. 291); «estas crises mundiais são crises de santos» (ibid., n. 301).Hoje não bastam mulheres ou homens bons. Além disso, não é suficientemente bom quem se contenta em ser quase... bom; é preciso ser "revolucionário". Ante o hedonismo, ante a carga pagã e materialista que nos oferecem, Cristo quer inconformistas! Rebeldes de Amor!” (Sulco, nº 128).

Ou seja: e…se nos levantássemos?

sábado, 6 de outubro de 2012

Santificar o Desemprego


No próximo dia 2 de Outubro, ocorre mais um aniversário desse dia em que S. Josemaria “viu” o Opus Dei, ou seja, que Deus queria uma instituição na Igreja Católica que recordasse que todos estamos chamados à santidade, no lugar, nas circunstâncias e no trabalho que exercemos.

Para quem teve oportunidade de ver o filme “Encontrarás Dragões” de Roland Joffé, esse dia está recriado numa cena em que Josemaria, juntamente com pessoas de todas as profissões e condições - novos, velhos, mais ou menos pobres, sãos, doentes, homens, mulheres, enfermeiras, operários, engenheiros, …. - se debruçam para uma espécie de cave onde podem contemplar a oficina de carpinteiro em que Jesus, o Filho de Deus, trabalha afincadamente. Não creio que tenha sido exatamente assim, mas o significado é esse: todos temos que aprender desse trabalho contínuo, árduo, monótono e normal, bem feito, mas igual a tantos outros, que Jesus exerceu em Nazaré durante a maior parte da Sua vida neste planeta.

Recordo bem a primeira vez que entrei num centro do Opus Dei do Porto – tinha uns 14 anos? - e de me perguntarem o que é que eu sabia sobre a Obra. Eu tinha lido vários livros e revistas, julgava que estava bem informada, pelo que a resposta não se fez esperar:  

- Que ensina que todos podemos ser santos!

- Sim. – replicaram-me – Mas através do trabalho profissional.

Lembro-me que fiquei surpreendida com o esclarecimento e perguntei a mim própria: “- Como é que se pode ser santo sem trabalho profissional?” Naquele momento, aquilo pareceu-me uma redundância e não conseguia lembrar-me de alguma situação ou pessoa que não trabalhasse.

Pois, olha, agora toca-me, como a uma percentagem considerável de europeus, santificar o desemprego e isto dá imenso trabalho… É que o trabalho não se mede pelo valor da remuneração, mas pelo valor de quem o faz: pela perfeição, profissionalismo, pelo amor com que desempenha cada tarefa. Por isso, que alta categoria podem chegar a ter as tarefas domésticas, a receção de um cliente, o estar doente ou, paradoxalmente, o estar desempregado/a!

E como se santifica então o desemprego? Fácil, a resposta: procurando emprego ou tentando criá-lo, se existe possibilidade. A realidade é bem mais árdua. É necessário recorrer a meios naturais e sobrenaturais: cumprir as tarefas que o Centro de Emprego nos impõe pontualmente, com tenacidade e apesar de nos parecerem perfeitamente inúteis e humilhantes; fazer e mandar currículos variados, adaptados e rebaixados e rezar para que alguém lhes dê atenção e precise dos nossos serviços. Aumentar as nossas qualificações, descobrir competências, frequentar essas ações de formação que talvez nos vão servir para alguma coisa. Não perder o tempo na TV ou no café, manter-se ocupado, com um horário de levantar, deitar e tarefas concretas que nos façam sentir e ser úteis e, se possível, nos rendam alguns euros. E entretanto, tentar perceber que esta situação tem algum sentido valioso, que Deus a permite para que nos apoiemos noutras referências que não o dinheiro, o bem-estar, a consideração dos outros ou a nossa autoestima. Talvez Deus, a Família ou os amigos a quem dedicamos tão pouco tempo e atenção.

Existem aqui imensas potencialidades que é preciso não desaproveitar. Deus queira que, para todos os que temos por trabalho o desemprego, este tempo seja o mais curto possível e se transforme numa oportunidade de crescer por dentro.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Refletir sobre 40 anos de Coeducação

No próximo dia 31 de Março, pelas 17.00h, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, é apresentado pela autora famalicense Amélia Freitas o livro “Entre o Tabu e o Sucesso. O caso da Educação Diferenciada por Género” da Editora Papiro.
Embora possa passar despercebido, a 28 de Novembro de 2012, ocorre o 40º aniversário do Decreto–Lei nº 482 do Ministério da Educação Nacional presidido por José Veiga Simão que determinou “(…) para vigorar a partir do ano lectivo de 1973-74, o restabelecimento da Coeducação no ensino primário e a sua instituição no ciclo preparatório do ensino secundário”.
A maior parte das pessoas, incluídos os professores, estão convencidas que a mudança na organização escolar se deveu ao 25 de Abril, mas, e apesar de os efeitos do citado decreto se terem feito sentir após a Revolução, de facto, não foi assim. Também pensam, numa visão simplista, que antes, a educação sempre tinha sido diferenciada por género e que, depois, deixou de o ser. Aqueles que andam pelos 50 anos ou mais, recordam talvez os seus anos nalguma escola primária das que foram construídas na década de 40 a 50 do século passado, no âmbito dos Centenários da Fundação de Portugal e da Restauração, normalmente um edifício gémeo com entradas separadas por sexos e um longo e alto muro de granito que dividia os recreios. Também não é verdade: existem muitos edifícios do mesmo género pelo país apenas com uma sala.
A coeducação sempre foi alternativa, por razões económicas, quando os alunos eram poucos quer no ensino primário, quer no secundário. Aliás, apenas em algumas capitais de distrito havia liceus femininos e masculinos. Por exemplo, em Famalicão, o Liceu Camilo Castelo Branco era misto. Outros, como o Liceu de V.N. Gaia ou o Alberto Sampaio, em Braga, optavam por turmas diferenciadas, como se fez, até bastante tarde, com a Educação Física e os Trabalhos Manuais. Daí que o decreto fale de “restabelecimento” da coeducação e não de introdução da mesma, tendo em conta que sempre existiu, dependendo das condições demográficas.
Passados 40 anos, vale a pena recordar e refletir sobre os argumentos e fatores dessa mudança de organização escolar:
 a) A experiência “francamente positiva” nas escolas onde tinha sido praticada a Coeducação, por força das circunstâncias ou por experiência pedagógica, e a de outros países onde se estava a generalizar com resultados satisfatórios;
b) A Igualdade: “A evolução social tende a situar homens e mulheres lado a lado com equivalência de direitos e deveres, na família, no trabalho e em geral na vida quotidiana”;
c) A Socialização: “Convém pois que as crianças se habituem, desde os primeiros anos de escolaridade, a uma situação (…) em que rapazes e raparigas cresçam numa sã convivência”, o que leva a esperar “um maior equilíbrio para personalidade de cada indivíduo e uma melhor preparação para assumir o seu futuro papel na sociedade”;
e) A esperança de que a Coeducação “ (…) valorizará o clima moral da escola,” e de que supusesse “uma maior aproximação entre mestres e alunos, bem como entre a escola e a família”;
f) “Quando se verifiquem disparidades entre as linhas de crescimento psicológico dos dois sexos, um atento ensino individualizado será necessário e suficiente (…)” e com “(…) novas técnicas pedagógicas onde tenham lugar a participação activa, o espírito criador e a atitude de colaboração” (MinistériodaEducaçãoNacional, 1972).
 É certo que a Coeducação generalizada constituiu um instrumento de Igualdade, sobretudo no que se refere ao acesso das raparigas à escolaridade, mas será que os objetivos de Veiga Simão foram atingidos? Não é verdade que as raparigas continuam a não ter acesso aos mesmos postos e salários que os seus colegas? Porque será que os rapazes apresentam maiores índices de abandono e insucesso em todos os países da OCDE? O clima moral da escola melhorou, de facto?
O livro Entre o Tabu e o Sucesso tem como base um estudo de caso de 3 colégios portugueses com Educação Diferenciada e abrange uma visão da evolução das concepções da sociedade e de género subjacentes às opções educativas, uma perspetiva histórica do ensino público/privado, religioso/laico em Portugal e uma descrição dos argumentos ideológicos, psicológicos, axiológicos, logístico/económicos, pedagógicos e institucionais brandidos pelos partidários de cada um dos modelos.
MinistériodaEducaçãoNacional (1972). Decreto-Lei nº 482/72 de 28 de Novembro. DR 1ª série, nº 277. Disponível em 15-12-2009. em http://dre.pt/pdf1sdip/1972/11/27700/17851786.pdf.