segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

LUGARES DE BELEZA

Ao estender a toalha recém engomada e ao recontar novamente os convivas, ressoam na minha memória umas palavras de Bento XVI, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém: “Fazei coisas belas, mas sobretudo fazei das vossas vidas lugares de beleza”.
Pôr a mesa, e em particular a mesa de Natal, pode constituir uma forma gráfica de criar um lugar de beleza, um acto de cultura, uma forma de arte. Efémeros, é certo; mas não são efémeras a maioria das obras de arte mais surpreendentes e imprescindíveis? Uma gota de chuva, um pôr-do-sol, uma flor?
Conjugo as cores da toalha, dos guardanapos, dos pratos, do centro de mesa. Coloco cada prato pensando na pessoa da família que se vai sentar nesse lugar. Tem que ter espaço, embora a família seja grande e ficar onde possa conversar. As crianças, o mais juntas possível, para ser mais fácil servi-las e ver o que comem.
O centro de mesa é uma coroa do Advento cujas 4 velas a criança mais nova foi acendendo, uma a uma, nos almoços dos 4 domingos anteriores ao Natal.
Acto de cultura é a disposição dos talheres. Não é indiferente. Não é preciso colher de sopa, porque na noite de consoada não se come sopa. (Aleluia!!! Dirão aqueles que não gostam deste prato da dieta mediterrânica.) Talheres de peixe, porque hoje é bacalhau.
Antigamente, na véspera das festas fazia-se abstinência – esse sacrifício de não comer carne. Comer peixe continua a ser coisa difícil para muita gente, em especial com os talheres específicos. Bacalhau não constitui uma refeição pobre, mas os sinais de contenção, de sobriedade, vão aparecendo no meio da festa: batatas e couves, doces feitos de pão duro disfarçado com mel e frutos secos, os restos aproveitados para a “roupa velha”… Apontamentos semi-ocultos que vão recordando que o Menino também nasceu em circunstâncias de crise.
Encontro lugar para os copos e todos os talheres de sobremesa. Primeiro a colher, pois virão mexidos vários, porque cada casa tem a sua variante e a aletria da tia é sempre melhor e mais amarelinha. Depois, o garfo e faca virados um para o outro, para as rabanadas ou a fruta. O aroma a mel e canela rescende das travessas antigas, herdadas dos avós. Dos avós herdámos também todas as receitas, os sabores, os rituais, a fé num Deus que nasceu numa família como a nossa.
Não significa isso que na nossa mesa não haja Coca-Cola e gomas ao lado dos pinhões e das nozes. Importa sim que cada um note e saboreie que é festa, que lhe entre por todos os sentidos o passado e o futuro, as tradições e o carinho de família, a alegria de ver encarnado, tangível nos olhos dos outros, o Deus-Amor que dorme no presépio.
16/12/2010

DIZEM CAFÉ É QUE NOS SALVA

Um amigo meu repetia esta piada de cada vez que íamos ao bar da faculdade beber o nosso cafezinho. Lembro-me disso muitas vezes, quando sinto a falta de algo, por gulodice ou para tirar o sono. Ultimamente, de cada vez que passa aquele anúncio de uma conhecida marca de máquinas de café em que George Clooney apanha com um piano em cima da cabeça. Costumo dizer que, para morrer, basta que nos caia um tijolo, mas a ele tinha mesmo que lhe cair um piano de cauda…
E lá vai o George Clooney por aquela escada branca acima com o saco da máquina de café na mão. E a seguir vem esta pérola de diálogo: “- Onde é que eu estou?” – pergunta ele ao John Malcovitch que está a fazer de S. Pedro. O pobre, de facto, nem faz ideia. Nunca se viu noutra nem teve tempo para se habituar à ideia de já estar a fazer tijolo, nem sequer reconhece aquele S. Pedro de fato branco. Desconfio que não será o único a quem lhe aconteça semelhante. Chega a ser impressionante a falta de cultura religiosa dos nossos contemporâneos. Presumem de mestrados e doutoramentos e não possuem os rudimentos de uma catequese mal amanhada. Entram num museu ou numa catedral, vão a um casamento ou funeral e, pela atitude, vê-se logo que pelas mentes paira a mesma pergunta. “- Onde é que eu estou?”
A resposta soa melhor em inglês: “ – Make an educated guess!” ou seja: “ – Dá um palpite de alguém instruído!” Pelo que, deduzo eu, até para chegar ao céu, é necessário ter alguma educação, formação, instrução sobre estas coisas da outra vida, que, entre outras coisas, será eterna. E familiarizar-nos desde já com os habitantes dessa dimensão, ganhar alguma cumplicidade…
Nestes dias dos fins de Outubro, veremos mais uma vez esse desfile de bruxinhas, fantasminhas, vampirozinhos, monstrinhos e demoniozinhos que, para além de introduzirem mais um carnaval de inverno importado e de contribuírem para o comércio local, servem, segundo se justifica nos objectivos da actividade, para exorcizar os medos das criancinhas. Parece que se pretende vencer o medo da morte, mas não vejo ninguém a levar os meninos aos funerais e ao cemitério, apesar de nestes dias serem autênticos jardins. Não seria muito mais interessante falar-lhes dos seus antepassados, dos familiares, dos santos ou dos anjos que vivem felizes “nos esplendores da luz perpétua”?
O George Clooney também achava que ainda era cedo para morrer. A sua sorte é que tinha acabado de comprar uma máquina de café e o S. Pedro lá concedeu aquele arranjinho da troca da dita por mais algum tempinho de vida cá na terra. Não perdeu pela demora: veio outro piano. A verdade é que nenhum de nós está livre de que lhe caia em cima da cabeça o piano, o tijolo ou até o céu do Astérix. Por isso, das duas, uma: ou trazemos connosco a máquina do café ou convém ter as malas feitas, isto é, ter umas amizades lá por cima.
22/10/2010

FÉRIAS DE UM BURRO DE CARGA

Dizem que em determinada aldeia do nosso país havia um agricultor muito avarento, como se verá pela história que segue. Esse senhor tinha um burro, que é animal trabalhador sem grandes exigências laborais ou de manutenção alimentar. Adequado, portanto, à condição económico-agarrada de seu dono. No entanto, em situação de crise, vale tudo e o velho agricultor resolveu pôr o burro a dieta, que agora estamos no Verão e até é bom perder uns quilitos para perder alguma celulite acumulada. Vai daí, foi diminuindo a ração da palha ao pobre do asno: menos um fardo por semana, menos dois na outra e por aí adiante até que o burro magrinho já quase que não se tinha nas patas. Por fim, depois de duas semanas sem alimento, o animal apareceu morto no local de trabalho. Conclusão do dono: “- Que pena! Agora que ele já tinha aprendido a trabalhar sem comer….”
A ideia não é falar de anorexias nervosas ou dos direitos dos animais, mas dessa outra doença do século que - embora apenas afecte alguns… - consiste em não ter aprendido a largar o trabalho e descansar.
Uma das grandes conquistas da civilização judaico-cristã é o dia de descanso semanal: no nosso caso, o Domingo. Algo insólito para os chineses, por exemplo, que verificamos não saberem o que significa uma semana de 40 horas ou 22 dias de férias - outras conquistas dos trabalhadores que consideramos um avanço civilizacional de grande monta. Não são os únicos, pois, frequentemente, os empresários, as mães e outros trabalhadores por conta própria também desconhecem essas limitações ao horário de trabalho e terminam irremediavelmente exaustos.
É aí que entra a lição do nosso amigo asinino: é preciso cuidar do corpo que é um instrumento de trabalho como outro qualquer e também precisa de “papas e descanso”. Garantir uma alimentação equilibrada, cuidar da saúde, fazer desporto e aprender a repousar são deveres de qualquer trabalhador que se preze. Descansar não é sinónimo de não fazer nada – o que aliás se tornaria extremamente aborrecido e até mesmo cansativo. Mudar de actividade também relaxa e dedicar algum tempo à família, ao desporto, a um passatempo, à leitura, ir a uma festa ou ao cinema, dormir mais um pouco, passear…mais do que luxos, acabam por ser deveres. O mesmo se poderia dizer desse costume - que convém não perder - de fazer as refeições em família, sentados à mesa. Hora de parar, de estar juntos, de conversar, de comer devagar e com correcção. Que oportunidades de repor as forças e de educar se perdem por não querer ter esse trabalho…
E depois, porque não desligar a TV mais cedo e ir para a cama? Quantas vezes nos podem dizer, mais ou menos explicitamente, perante o nosso mau-humor ou impertinência: “-Deixa, que o teu mal é sono!” Talvez tenhamos estado a cortar na nossa ração de horas de dormir….ou então na ração dos outros…
A propósito, - e só para aqueles que têm a humildade de tentar encontrar esses tempos de reposição de forças - conta-se de João Paulo II que, um dia, ao fim da tarde, e ao vê-lo vir curvado e a arrastar os pés, alguém lhe disse compassivamente: “- Vossa Santidade está demasiado cansada! Tem de descansar!” Ao que o Papa respondeu: “- Se a esta hora não estivesse cansado, é porque não teria cumprido o meu dever”.
19/08/2010

UMA VENDA SUSPENSA (ou o 4º Santo Popular)

O tremor das mãos denunciava a angústia daquele senhor idoso numa farmácia em hora de ponta.
- Ó Sra Dra, não sei onde pus a venda suspensa. Já procurei tudo e não aparece …
- Assim, não lhe posso reembolsar o medicamento. Tem que a trazer.
O medicamento era caro, mas a mulher tinha precisado dele, estava aflita. As posses não eram muitas e o dinheiro fazia falta. E agora, que já tinha a receita do médico, não aparecia a venda suspensa. Andava há uns tempos com estes esquecimentos…
- Olhe, já rezou ao Sto António?
- Ó Sra Dra, eu nem sei o responso. Dizem que é preciso rezá-lo sem se enganar…
- Não se preocupe, que eu rezo por si. Vá lá procurar melhor. Vai ver que vai aparecer.
O dia de trabalho continuou na azáfama e vai-vém habitual de clientes, até que, de tarde, o senhor da venda suspensa surgiu vitorioso exibindo o papel na mão.
- Nem sabe, Sra Dra! Mal cheguei a casa, virei-me para o santo e disse-lhe: “Ó Sto António, aquela oração que a Sra Dra sabe!” e então lembrei-me que, se calhar, a venda suspensa estava junto com os papéis do IRS. Fui ver e lá estava!
Deus e os santos interessam-se porventura por vendas suspensas? Intervêm em situações tão comezinhas da vida das pessoas? No meu quotidiano? Interessam-se por mim? Não vivem lá numa esfera superior, noutra dimensão demasiado longínqua e inacessível ao comum dos mortais? Para conseguir que nos oiçam não são precisas cerimónias complicadas e saber recitar responsos sem se enganar? No fim de contas, só umas pessoas especiais, sobredotadas como o Sto António, que viveu há muitos séculos e é famoso em todo o mundo por conseguir fazer tantos milagres, é que talvez consigam comunicar com esse universo. Uma espécie de extra-terrestres, demasiado perfeitos para pessoas como nós, que temos de nos preocupar com o trânsito, com não queimar o refogado e aguentar o mau humor do chefe.
Os santos dir-nos-iam, porém, que não é bem assim. E ficariam talvez surpreendidos, para não dizer ofendidos, por os considerarmos uns extraterrestres, quando - quanto a eles – se limitaram a activar o Baptismo que receberam, como qualquer dos cristãos. O facto de estarem em comunicação directa com Deus não o têm como algo de extraordinário: um filho normal não considera milagroso conversar ou pedir alguma coisa a seu pai… E o terem lutado para serem bons filhos durante a sua vida, será por acaso algo de insólito?
Qualquer cristão – acrescentariam - pelo facto de estar baptizado, é chamado ser um Santo, com S maiúsculo, de “Sim, Senhor! Satisfaz +++! 100%! Excelente! Parabéns!” O segredo para esse resultado é procurar manter Deus à esquerda dos nossos zeros, isto é, manter a relação, o diálogo através da oração, do trabalho – qualquer que ele seja – de todos os momentos e circunstâncias da sua vida real e concreta, corriqueira, do seu serviço aos outros. Não é real uma santidade de pessoas especiais, de tarefas ou de eventos esporádicos: “(…) a vocação cristã consiste em fazer poesia heróica da prosa de cada dia. Na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não; onde se juntam deveras é nos vossos corações, quando viveis santamente a vida de cada dia...” (S. Josemaria, Amar o mundo apaixonadamente)
Deus está perto. Não vive, lá longe, demasiado longe para estar a par dos problemas deste habitante do planetazito azul. Não. Está perto. É meu Pai, conhece-me pelo diminutivo e é parte interessada na minha preocupação por encontrar uma venda suspensa, por deitar os filhos, por conseguir pagar a prestação da casa ou por chegar a horas ao emprego. O que haverá de mais natural do que a relação com Ele? “A oração que a Sra Dra sabe!” Aquela que eu sei e que ninguém sabe melhor do que eu, aquela que é feita dos pequenos incidentes, do sorriso ou da anedota que desanuvia um ambiente de crise, do olhar, do movimento de coração que agradece ou solicita ajuda, do desejo de superação.
Muitas destas ideias, ouvimo-las há pouco da boca de Bento XVI, aquando da sua visita a Portugal e constituem, por assim dizer, o núcleo dos ensinamentos do Cristianismo, desde os seus primórdios, recordados nos nossos tempos no Concílio Vaticano II. Se todos os santos o encarnaram de um modo ou outro – o seu – um santo dos nossos tempos, S. Josemaria Escrivá “viu-o” a 2 de Outubro de 1928. “Tudo isto o viveu no meio das ocupações quotidianas, merecendo ser chamado o «santo da vida corrente». Com efeito, a sua vida e a sua mensagem ensinaram uma imensa multidão de fiéis – principalmente leigos atarefados em variadíssimas profissões – a converter os afazeres mais comuns em oração, serviço ao próximo, e caminho de santidade”. (João Paulo II, Bula da Canonização)
E como é que isso se faz? Porque não basta ter uma ideia: é preciso aprender modos concretos que se apliquem à própria situação, ter modelos, trilhar caminhos, por vezes muito esquecidos. Por isso, a vida dos santos – dos que nos precederam e dos que vivem ao nosso lado – é tão instrutiva e animadora. “Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho d’Ele”. (Bento XVI, Encontro com os Bispos de Portugal, 13/05/10)
João saltou de alegria, ainda na gravidez da mãe, ao pressentir tudo isto; Pedro, quando remendava as redes da pesca (da sardinha?!); António, dizem que tinha o bom humor de saber dialogar mesmo com os peixes, sardinhas inclusive. Festeja-se S Josemaria a 26 de Junho. Já houve quem lhe chamasse o 4º Santo Popular e não creio que desdenhasse mais uma sardinhada com arraial e martelinhos incluídos.


16/06/2010

BENTO XVI: OUTRO MILAGRE DO SOL

Aos peregrinos que, em 13 de Outubro de 1917, presenciaram o anunciado ”milagre do sol”, perguntaram se não teria sido uma alucinação colectiva.
“ -Se alguma coisa havia de colectivo, era a chuva que nos encharcava até aos ossos!”
Coisa parecida e surpreendente parece ter acontecido em Lisboa, Fátima e Porto à passagem de Bento XVI: aguaceiros, chuva miudinha ou mais forte, frio, nuvens ameaçadoras, mas, à hora da chegada do Santo Padre, um arco-íris de ponta a ponta, um céu azul esplendoroso e um rio vestido dos seus melhores brilhos para receber o Vigário de Cristo.
Talvez seja este um bom flash do contraste entre o ânimo sombrio de um país e a alegria esfusiante experimentada pelas multidões que acompanharam o Papa nos dias 11 a 14 de Maio.
“- Passe lá! Shhh! Não faça barulho! Queremos ouvir o Santo Padre!” – Os silêncios recolhidos das assembleias multitudinárias, impressionantes nas homilias e nas missas celebradas em latim. Não era normal!
“- Viva o Papa! Viva o Papa!” – Semelhante reacção de entusiasmo e devoção diante de quem, semanas atrás, era alvo de suspeição e antipatia, culpado de encobrimento de crimes horrendos, não é natural. A familiaridade do Presidente da República, Manoel de Oliveira, a comunicação social, as avenidas preenchidas, os longos aplausos…“-Quem é o Papa? - O Papa é aquele que faz as vezes de Jesus na terra!” - respondeu a criança e Portugal gritou-o nas praças e ao mundo.
O sorriso de Bento XVI! Um sorriso sereno e surpreendido de Magnificat, de quem só sabe dizer “Sim! Eis-me aqui!” Pediram-lhe para falar de Esperança. Apontou para cima, para Deus, para a santidade. A união com Deus faz-nos portadores de beleza e esperança no meio do mundo. Os jovens reagiram: “Eu acredito! O dia de amanhã está à nossa espera!”
A música. Outra forma de oração. Nos Jerónimos, o coro da Gulbenkian, os coros gregorianos aliados aos tradicionais. Vozes de criança e de adultos que pareciam renovados.
Sobremesa preferida: a torta de noz. Mais um ponto de encontro, de diálogo e de cultura com o Papa “que gosta de gatos, de ler e escrever e de tocar Bach e Mozart” nas palavras de outro miúdo a quem perguntaram o que sabia de Bento XVI.
Várias pessoas que estiveram na Avenida dos Aliados disseram que não conseguiram ouvir quase nada da homilia do Santo Padre. De facto, o som ficou mais baixo e notava-se um pouco o cansaço de 83 anos e já a saudade da despedida. Mas, de qualquer modo, os discursos de Bento XVI, por mais acessíveis que sejam, não dispensam nunca uma leitura sossegada e repetida. Muito é dito nas linhas e entrelinhas… Portugal, que soube mostrar ao mundo como se ama um Papa, precisa agora de ler devagar estes sinais e seguir-lhes o rumo.
20/05/2010

NÃO ATAQUEM O PAI NATAL!

Uma coisa que tenho constatado nestes dias: agora o Pai Natal já não entra pela chaminé. Deve ter achado que sujava as barbas brancas e o fato vermelho na fuligem ou então começaram a cobrar-lhe estacionamento nos telhados ao trenó das renas e pronto: resolveu deixar o dito cá em baixo - que, à noite, o parquímetro é de borla -  e começou a subir pelas varandas. Só num prédio por onde costumo passar, devem estar pendurados cerca de uma dúzia de clones do Pai Natal, todos comprados, se calhar, na loja do chinês mais próxima. Por vezes, não sei como hei-de classificar este fenómeno: publicidade ao comércio asiático, uma evolução do Pai Natal para Homem-Aranha, crise de renas voadoras no Pólo Norte, consequências da greve dos limpa-chaminés, sei lá…
Pobre Pai Natal! Eu gosto dele. Não é por me trazer prendas. Nessa tarefa, não tiro o lugar ao Menino Jesus. Sempre, em Portugal, foi Ele que se encarregou de nos pôr os presentes no sapatinho. Em Espanha, até podem ser os Reis Magos; na Itália, a velha ou bruxa Beffana; nos Países Baixos, S. Nicolau e nos EUA, o Pai Natal. Mas no nosso país, sempre foi o Menino Jesus. Por favor, não O mandem também para o desemprego!
Pronto, está bem: o Pai Natal até pode ser um ajudante simpático e com um fato mais vistoso para este encargo pouco recomendável e demasiado difícil para um recém-nascido. Nossa Senhora e S. José até podiam ser acusados à Protecção de Menores de exploração do trabalho infantil.
Apoio a nomeação do Pai Natal enquanto assessor em part-time do Menino Jesus, contratado a recibos verdes pelo trabalho temporário na noite de Natal. É precário, mas que vamos fazer? Estamos em crise…
Proponho ainda que se dê maior relevo ao Dia do Pai Natal, o dia 6 de Dezembro, festa de S. Nicolau. Como é sabido, “Pai Natal” é apenas o nome artístico e carinhoso de S. Nicolau de Bari, um bispo que gostava de crianças e deixava moedas nas janelas para juntar ao dote das moças pobres. Daí ter um jeito especial para resolver dificuldades económicas: salários em atraso, desempregos, falta de donativos, erros de caixa, conseguir um empréstimo, um juro mais baixo…
Aliás, na crise económica em que estamos, até estranho como é que o nosso Ministro das Finanças ainda nãos e lembrou de convocar os serviços deste santo e propor que no 6 de Dezembro se faça um momento de oração no Parlamento, a ver se não nos vemos gregos para sair deste atoleiro.
Mas quem é importante no Natal, de facto, é o Menino Jesus. O aniversariante é Ele. Os presentes são uma pequena amostra de todos os que receberemos ao longo do ano: a vida, a saúde (pouca ou muita), a fé, a família, o trabalho, os professores, os amigos, a natureza, a casa, a alimentação… Este Natal, haverá pessoas que não terão no sapatinho algumas destas coisas. Essas encontrar-se-ão como no Presépio. O próprio Menino Jesus veio ao mundo sem nada. Porque é mais importante dar-se do que oferecer bugigangas que só enchem espaço. Porque o essencial não são as coisas, mas as pessoas: a Mãe e o Pai. A Família.
Um Feliz Natal!
15/12/2009

O MUSGO

Este fim-de-semana já sei que os meus sobrinhos me vão lembrar:
“- Temos que ir ao musgo!”
Pretexto para um passeio na floresta, como eles dizem. Uma forma hiperbólica de designar uma bouça, uma mata, um bosque, um pequeno pinhal, onde devia haver lobos, monstros e um Capuchinho Vermelho com 7 anões. Mas não, nós só vamos buscar musgo.
É que um tapete de musgo, apesar de não ser essencial, é uma peça importante na preparação do Natal. É o mesmo que dizer:
“- Temos que preparar o Natal! Temos que fazer o presépio, a árvore de Natal, comprar as prendas, decorar a casa, escrever a carta ao Menino Jesus, ….” Que nós portámo-nos sempre bem ao longo do ano…
O musgo é a primeira coisa, no início de Dezembro, porque será o chão, a base de toda a cena que recriaremos a seguir: os montes e vales que Maria e José percorreram até encontrarem a gruta onde o Menino vai nascer.
É uma espécie de berço verde, mais macio e fresco que as palhas da mangedoura, que estenderemos sobre umas caixas de papelão a fazer de colinas. O mais bonito e fofo mais perto da gruta. E um rio de papel de alumínio que vai ter a um lago com patos onde uma lavadeira vai lavar as fraldas do Bebé.
Colocar musgo. Acolchoar o chão, tornar macio o caminho que Deus há-de pisar. Talvez seja um bom propósito para este mês: tornar macio o caminho que aqueles que estão ao nosso lado têm de percorrer.
Um pouco mais de serenidade, de calma nas compras, de atenção ao modo de servir. Chegar a água, o pão, uma cadeira, ceder a vez, não buzinar, enviar um SMS, pôr o telemóvel no silêncio. Baixar o tom de voz resulta para adormecer uma criança e dominar os nervos. Sem stress. “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos” – disse a rosa de Saint-Exupéry. Coisas pequenas. Uma oração. Um sorriso. Algo que torne a vida mais agradável, que problemas e crises já ela tem que chegue. ..
Pouco a pouco, com cuidado, como quem pousa pedacinhos de musgo num presépio.
 3/12/2009

PARA QUE SERVE UM PRESÉPIO?

“O Natal não é um aniversário, nem uma recordação. Também não é um sentimento. É o dia em Deus faz um Presépio em cada alma”. – assim o define Enrique Monasterio no seu livro “Quem fez o presépio?”, editado em Portugal pela DIEL.
Um Presépio é todo um microcosmos, como o é o coração de uma criança. Todas as coisas estão aí presentes. A ideia de Francisco de Assis quando arquitectou a primeira representação – ao vivo - do nascimento de Jesus era talvez só isso: reunir num estábulo as figuras de Maria, José, um bebé para fazer de Menino, ovelhas, pastores, Reis Magos. O objectivo era o mesmo dos nossos audiovisuais: pôr diante dos olhos o acontecimento mais transcendente da História numa espécie de maquete que qualquer criança ou analfabeto pudesse facilmente interpretar e recordar. Já dizem os chineses que “uma imagem vale mais que mil palavras” e então se for a 3 dimensões…
Um Presépio faz-se devagar, sem pressa, tal como se cria um universo para rodear o Menino que vai nascer, tal como uma mãe decora o quarto de um bebé que traz no seio.
Começa-se no início do Advento, pela Imaculada. Aí, “- Temos de ir ao musgo! Quando é que vamos ao musgo?”- reclamam as crianças da casa. Pretexto para um passeio pelas matas à procura do tapete verde dos presépios que se prezam. Se encontrarmos um ramo de sobreiro, já servirá de Árvore de Natal.
Pomos o nosso Presépio na sala, num lugar central e visível, que entre pelos olhos. Perto de um sofazito onde possamos sentar-nos a contemplar, a mudar uma ovelha de sítio, a brincar com os patos que nadam no lago. Num dia, aproximo um pastor, no outro uma das mulheres que leva um cesto à cabeça ou os Magos que são os que vêm de mais longe. Estão lá representadas muitas profissões: além dos pastores com ovelhas e cabras, há músicos, comerciantes, uma vendedora de castanhas, um moleiro com o seu burro, agricultores produtores de melancias, de galinhas, profissões liberais e até Reis…Cada um leva os sinais e o fruto do seu trabalho como presente para o Menino. Tem quem leve apenas uma flauta ou até o seu olhar, porque não tem outra coisa para oferecer. Na cidade e nas aldeias tem mais gente que ficou em casa ou ninguém lhes disse. Já saberão por todos os que puderam ver o Príncipe da Paz. Desde o ano do 11 de Setembro também lá tenho o Bin Laden com uma bomba na mão. (Por isso é que não o encontraram ainda.) Serve-me para rezar e esperar que a ponha devagar junto de Jesus e ela não estoure nunca mais em lado nenhum.
E depois, tem anjos, muitos anjos, a rezar, a cantar, a tocar todo o tipo de instrumentos, uns grandes e outros pequeninos, mas rivalizando todos por estar cada um mais perto da gruta para verem bem o Menino Deus. Também ponho passarinhos e umas pombas brancas que vieram num bolo de noiva e flores e umas pinhas pequeninas que significam isso mesmo: que queremos estar assim como uma pinha, ali juntinho do boi e do burro a tentar aquecer a mangedoura, sem comer a palha, claro está.
Ao lado do Presépio, ponho um cesto com mais palhinhas ou com “beijinhos de amor” – uns búzios que aparecem na Póvoa de Varzim. São para pormos junto do Menino quando nos portamos bem, isto é: quando o trabalho foi bem feito, quando nos esforçámos por estar a horas, por fazer boa cara, por prestar um serviço, por estudar as horas previstas, por ajudar um amigo, por comer o que nos serviram sem resmungar, por rezar um pouco…e tantas coisas mais.
Que me diz o Presépio? Todo um mundo está nele contido que às palavras lhes custa a resumir. Não disse que era um microcosmos? Diz que Deus veio a este nosso mundo e salvou-o – ainda que nos custe a acreditar -, que todas as coisas são boas, pois são susceptíveis de serem adorno e presente para o Menino, que a Família não se pode dispensar, que todas as pessoas – mesmo o Bin Laden - podem estar a caminho de Belém, que qualquer trabalho e esforço é importante e valioso desde que sirva para o pôr aos pés de Jesus, que o centro de uma vida, de todo o universo, dos olhares dos anjos e dos homens está aí, deitado numa manjedoura, carente e cheio de frio, à minha espera.
Dezembro de 2008

Halloween

Entrei com umas amigas numa capela da nossa cidade onde há uma pia de água benta. As miúdas, curiosas, imitaram as pessoas, benzeram-se e então perguntei:
“ - Sabem para que serve a água benta?” “- Eu sei! É para afastar os demónios e os vampiros!” “- Demónios e vampiros ???!!!!” Cultura do Sobrenatural, Exorcista e outros filmes de terror.
Tecnicamente, a água benta é um sacramental da Igreja Católica que serve para recordar o baptismo e limpar de pecados leves que tenhamos cometido. De facto, o poder da oração da Igreja que lhe está associado, afasta os demónios.
Santa Teresa de Ávila e outros santos a quem os mafarricos apareciam de formas diversas atestam que, quando os borrifavam com umas gotinhas de água benta, era vê-los fugir… As bruxas e videntes também sabem disso e toda a gente já viu que, nos filmes, eles até do frasco têm medo.
As pessoas dizem que não acreditam em demónios, mas vejo que nunca houve tanta curiosidade pelo mundo dos espíritos, sejam eles fantasmas com assuntos pendentes, anjos com asas brancas ou pretas com nomes terminados em “el”, almas do outro mundo penadas e descompostas, bruxas e bruxinhas, videntes e magos, gente que lê a sina, as cartas, búzios, folhas de chá e bolas de cristal, que faz dançar mesas de pé-de-galo e brinca ao “jogo do copo” para fazer falar os mortos-vivos.
No dia 1 de Novembro, os adultos irão ao cemitério visitar os entes queridos. As crianças não vão, porque é demasiado impressionante para elas. Também não se costumam levar aos velórios e funerais. É difícil explicar-lhes a Morte, dizem. Mas as crianças não têm medo dos mortos. Estão cansadas de os ver nos desenhos animados e nos jogos de playstation.
Entretanto, na véspera, os jardins-de-infância celebram este ritual estrangeiro do Halloween, enchem tudo de abóboras cor-de-laranja e os papás a mascaram os seus pequenos das criaturas mais repelentes e maléficas que a imaginação cinéfila colocou no outro mundo. E mais: esses “monstrinhos” de Carnaval de Inverno irão pelas portas e, se não lhes derem um doce, deverão assustar-nos ou pregar-nos uma partida mais ou menos violenta (fica ao critério das mentes inventivas dos infantes). Muito educativo, não é verdade?
Faz-me lembrar uma cena a que assisti numa freguesia de Barcelos onde há uma grande romaria a S. Bento. Existe aí uma capelita que representa um episódio da vida do santo: o demónio (uma imagem barroca digna de filme de terror) tenta-o com uma mulher. Conta a história que S. Bento lhe resistiu rebolando-se nú numas silvas.
Pois bem, qual não é o meu espanto quando oiço uma mãe a dizer ao filho pequeno:
“- Toma lá 1€ para pores no S. Bentinho e um cigarro para dares ao diabo!”
Magistral! Assim anda muito boa gente pela vida, tentando estar de bem e ganhar amigos em todas as esquinas, sem nunca se comprometer com qualquer tipo de conduta, igualando todo o tipo de valores. Afinal, não é tudo relativo?
1/11/2009

EDUCAÇÃO SEXUAL SEM RECEITA MÉDICA

A Catarina tem 15 anos e costuma ir à farmácia de vez em quando. Dantes comprava clerasil para espinhas e pontos negros. Agora vai comprar um antiácido, que não precisa de receita médica, porque a lógica ansiedade do evento provocou-lhe um pouco de azia e vai pedir também um antibiótico para o abcesso. O abcesso é quase tão pequeno como a sua gravidez, mas, para esse, leva uma receita que lhe foi entregue pelo dentista.
A seguir, pedirá a pílula "pró que der e vier" – assim lhe chama a sua amiga Xana, que custa quase 15 € (a Xana não, a pílula). A Xana vale muito mais, porque o seu pai tem muita massa e já comprou várias pílulas (o pai não, a Xana) para não ter de ir à farmácia, depois de estar com o Micael.
Catarina acha que "pró que der e vier " não será o verdadeiro nome do medicamento, mas a Ana, uma farmacêutica buédafixe, irá esclarecê-la.
A  Catarina está nervosa, mas contente. Graças à nova pílula será mais livre quando estiver com o seu primo Ricardo. Além disso, explicaram-lhe na escola que, enquanto o embrião não nidar, pode-se deitar fora, que é como se não existisse. E a nidação só acontece alguns dias mais tarde. Quando o professor disse isto na sala de aula, o Ruca, que é um fala-barato meio tótó, respondeu: "Isso é como dizer que enquanto o bébé não estiver no berço, não é um bébé e posso chegar-lhe". A Catarina irritou-se e disparou-lhe: "Não é a mesma coisa, Ruca, e tu és um parvo", mas todos se riram, porque sabiam que ela andava com o Ricardo.
A Catarina chega à farmácia, mas como está lá uma velha (que tem pelo menos 40 anos) a comprar qualquer coisa, pede primeiro o kompensan para a acidez e o augmentin que o dentista receitou. A farmacêutica traz todos os medicamentos e pergunta: "Queres mais alguma coisa, querida?"
Como a velha ainda não se foi embora, Catarina aproveita para se pesar e comprovar que os três gelados que comeu com os colegas a engordaram quase meio quilo. Lá se foi a velha, e então diz: "Ah, já me esquecia. Eu também quero ..., essa pílula ... para depois, percebe ...?
Ana olha-a de cima abaixo e pergunta se é para depois de comer ou para depois de se pôr cega de cocacola com uísque. A Catarina abespinha-se toda e diz-lhe que ela sabe bem do que está a falar e que tem direito à pílula chame-se ela como se chamar. Ana responde-lhe que na sua farmácia, não se vendem abortivos nem que venha a ministra com uma pistola; que o que está feito, está feito e que vai dizer ao pai dela (ao da Ana não, ao da Catarina) para que saiba o que anda a fazer a garota.
A Catarina vai-se embora com uma fúria considerável à procura de outra farmácia longe de casa onde não a conheçam. Finalmente encontra-a e dão-lhe a famosa pílula. “Só uma?”, pergunta a miúda. O farmacêutico ri-se-lhe na cara e pergunta para que é que quer mais. "Dedicas-te a isso? És uma profissional?”
Catarina tomou a pílula com um copo de Coca-Cola Light. Ela teria preferido um copo de Baylis, que é docinho, com um pouco de gelo, fica-se logo um pouquinho alegre, mas álcool não o vendem nem com receita médica.
À noite, pensa que já pode ficar tranquila, que a coisa não teve importância, porque muito provavelmente nem sequer estava grávida. E se estivesse, era uma gravidez muito pequenina e o embrião não tinha tido tempo de nidar. Claro que a Ana é uma exagerada, mas não irá dizer nada ao pai. E se disser, que diga. Porque ela tem os seus direitos, disse uma ministra muito simpática que há agora.
Catarina mete-se na cama. Sempre rezou três ave-marias, mas hoje dá-lhe uma coisa e não reza nada. Apaga a luz e começa a chorar como quando eu era pequena e não podia conseguia dormir sozinha.

Enrique Monasterio
(tradução e adaptação - Amélia Freitas)
28/05/2009

ABRIL, SCOLARI E S. NUNO

Hoje é Dia da Liberdade! Já ouvi o Hino Nacional, tocado magistralmente pela Banda de Música, ouvi os discursos sobre a crise e o apelo ao patriotismo dos nossos deputados, do nosso Primeiro e do Presidente da República e…vai um silêncio de feriado na nossa Cidade…
Já que se faz silêncio, vou falar de S. Nuno Álvares Pereira, que não morava nas Caldinhas, nem foi escuteiro, nem sequer viveu em clausura. Agora, a História que se ensina não fala das pessoas nem de heróis. Fala da economia, das circunstâncias, das condicionantes, das Crises, das classes sociais em conflito, da cultura do tempo, mas não dos actores em presença. Ou pelo menos, não da vida dos agentes de mudança. Penso que nos fazem falta essas biografias. Perceber como é que outros homens e mulheres, que no fim são da mesma massa que nós, conseguiram superar essas circunstâncias do seu tempo, conseguiram superar-se a si próprios em serviço de uns ideais que a nós nos podem parecer estranhos.
Que heróis temos? Que modelos pomos como referência? O futebol levanta, de vez em quando, a nossa auto-estima, mas foi preciso vir o Scolari ensinar-nos cantar o Hino e a pôr a Bandeira Nacional nas janelas para tirar a vergonha dos símbolos da Pátria.
A minha professora primária, a D. Alexandrina, contava-nos as histórias dos heróis da nossa História (passe o pleonasmo). Por exemplo: de como o D. Nuno era Condestável de D. João I, o que significa que era como que o Comandante em Chefe das Forças Armadas do Reino. Pelos vistos era um bom profissional do exército e um bom estratega. A Crise de 1383-85 não foi nenhuma “pêra-doce”: corríamos o sério risco de estarmos hoje a falar castelhano. Dizia a D. Alexandrina que na Batalha de Aljubarrota a proporção era de 5 castelhanos a cavalo contra 1 português a pé, mas o D. Nuno Álvares Pereira aplicou a Táctica do Quadrado que tinha aprendido dos ingleses – o que significa que estava actualizado na sua profissão – e venceu essa batalha e ainda a de Trancoso, Atoleiros e Valverde.
As batalhas, agora, soam-nos a jogos de computador e Playstation. Só trememos quando há um ataque da Al Quaeda ou é preciso enviar soldados para o Afeganistão. Tive duas alunas que foram para a tropa, mas a guerra é uma ideia longínqua para o comum dos mortais – graças a Deus – e a profissão militar parece qualquer coisa de inútil. Como extravagante a ideia de que um militar possa ser santo. É por isso que D. Nuno Álvares Pereira é um santo pouco ortodoxo. Um homem que trabalhou na guerra, que matou gente, pode ser santo? Pode. Nós é que fomos invadidos, ele estava a defender o seu País, proibiu os saques e chegou mesmo a auxiliar as vítimas dos inimigos. E mais, fez o seu trabalho com sentido profissional e com honra. Encanta-me o pormenor da cantarinha da capela de S. Jorge que ele mandou lá pôr para matar a sede aos transeuntes, recordado da que tinham passado naquele 14 de Agosto de 1385. Coisas grandes e coisas pequenas… Também gosto daquele episódio de Valverde, em que andavam à procura dele para iniciar a batalha e o foram encontrar atrás de uma rocha a rezar. Não se consegue trabalhar bem nem combater sem a ajuda de Deus, mas com Ele, até a espada trabalha melhor. Faz-nos falta este santo guerreiro num país de brandos costumes que parece que tem medo de ousar lutar.
E a parte em que D. Nuno casou, teve três filhos, dos quais dois morreram e uma filha casou com D. Afonso, filho bastardo de D. João I, que viriam a dar origem à Casa de Bragança? E o facto de ser Conde de Barcelos, Conde Ourém e de Arraiolos, de ser dono de dois terços do território português? Um homem viúvo, rico e de sucesso pode ser santo? Parece que sim. “Não se valeu dos títulos de nobreza, prestígio e riqueza para viver num clima de luxos e grandezas”. (cf. Nota da Conferencia Episcopal)
Já viúvo, já depois da conquista de Ceuta em que também participou com 55 anos, já depois da morte da filha, retirou-se para o Convento do Carmo, como irmão donato para ir atender os pobres como porteiro. Diz-se que teve aí origem a “sopa dos pobres”. Diz-se também que D. Duarte, filho de D. João I, o convenceu a que não andasse mendigar esmolas para o convento como era seu desejo. Frei Nuno foi santo no convento? Também parece que sim. O que é certo é que a sua fama de santidade já era enorme à sua morte (que se deu a 1 de Abril de 1431, num dia de Páscoa) e que o próprio D. Duarte, que o conhecia desde Infante, pediu o início e lutou pelo seu processo de canonização apresentando uma oração e um panegírico redigidos pelo Infante D. Pedro e uma grande lista de milagres atribuídos à sua intercessão. No entanto, até o milagre da canonização é uma coisa pequena e normal: curou um olho queimado com óleo de fritar. Talvez porque as lutas diárias com os tachos e as frigideiras sejam as que realmente importam à hora de servir e amar, no concreto, uma família que está à espera do almoço.
25/04/2009

ELUANA, EUTANÁSIA E OUTROS NEGÓCIOS

O meu avô tinha uma funerária. Em Famalicão, diz-se que era armador. Porque armava os caixões, acompanhava funerais e também armava procissões, vestia anjinhos, etc, etc. Mas acontece que o desejo do meu avô era que o filho fosse para médico. O meu pai, que sempre teve muitos outros sonhos, usava o seguinte argumento:
- Como é que eu hei-de ser médico? Quem é que confiar num médico cujo pai tem uma funerária?
É que numa funerária, quer se queira quer não, os mortos são uma mais-valia para o proprietário, o seu ganha-pão, o lucrozinho, estão a ver?
Ainda me lembra aquele cangalheiro, personagem da banda desenhada do Lucky Luke que andava sempre munido da fita métrica para calcular a medida dos futuros caixões dos transeuntes. Nenhum de nós se sentiria confortável nas mãos de semelhante “alfaiate”…
E como nos sentiríamos se, ao entrar num hospital, num lar de idosos ou num centro de reabilitação de deficientes soubéssemos que tinham uma parceria com a funerária da esquina?
A propósito ou não do triste passamento de Eluana, a rapariga italiana que havia 17 anos vivia em estado vegetativo, têm aparecido várias achegas  propondo a eutanásia como solução. Não surpreende este emergir de um tema tão controverso no meio das preocupações da Crise económica. Quer queiramos, quer não, e embora pareça cruel afirmá-lo, cada dia de internamento de Eluana – como o de qualquer doente – custaria à volta de 125€ no SNS  português.
Convenhamos que, por trás da suposta compaixão pelo doente que supostamente diz ou sugere que deseja que o ajudem a morrer, podemos perguntar: “- Porque é que quer ou quis precisamente essa ajuda?”
Choca mais ainda o elogio recorrente da “coragem” contida nesse pedido. Mais valor demonstraria então o marido da uma mulher-a-dias que tive, alcoólico, desempregado – batia na mulher – que se enforcou sozinho na adega, digo eu.
Custa muito ver sofrer, impressionam as condições de solidão, de desprezo, de negligência em que vivem muitas pessoas; não nos imaginamos a conseguir passar por situações duras e longas de atrofiamento das nossas capacidades.
Há uns anos, tive oportunidade de fazer uma semana de voluntariado com um grupo de alunas no Centro de Deficientes Profundos João Paulo II que a União das Misericórdias tem em Fátima. Recordo um rapaz totalmente paralisado, todo torcido – uma folha de papel sobre a maca – apenas os olhos manifestavam uma vida não plenamente consciente. Mas gostava de passear e divertia as raparigas lançando um grito de papagaio pelos corredores. Nesse Centro tratam os utentes de “os nossos meninos” e custa a acreditar no afecto e coragem cheia de tenacidade dessas mulheres que assistem a vidas presas na infantilidade. Um dia pus uma sala a cantar o “Apita o Comboio”. Não sabiam o que faziam; divertiam-se por um movimento simpático. Inútil? Talvez. Impressionam, chocam a assistência, surpreendem na sua capacidade de sorrir alheios às importantes preocupações dos espectadores ditos normais e saudáveis.
É mais fácil e lucrativo, mais cómodo, menos impressionante esvaziar estas instituições. Fica cada vez mais caro cuidar de um acamado. Começamos a ser poucos para aguentar uma Segurança Social de um Estado Providência. O suicídio assistido, induzido, motivado por uns familiares cansados pode ser facilmente desculpável. É já política comum nos hospitais públicos em países como o Reino Unido, para não falar da Holanda, não investir muito em pessoas com mais de 70 anos ou determinadas deficiências. Fica caro e não vale a pena. Critério económico de mera política de gestão hospitalar, perante a escassez de recursos do SNS.
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Quando o meu pai terminou o curso de medicina, o meu avô fechou a funerária e passou-a a um concorrente e assim se acabou o negócio dos mortos na família.
 Opções de vida…
6/03/2009

ILUMINAÇÕES DE CRISE

É o que temos.
Foram inauguradas na 6ª feira.
Umas cortinas na R. de Sto António, uns globos na R. Adriano, flocos de neve na torre da Câmara. Salva – não sei se salva – a honra do convento a grande estrela do Bernardino, uma espécie de bolo de noiva travestido de árvore de Natal na Rotunda da Água e as luzinhas dos plátanos da Avenida 25 de Abril.
Alguém apresentou reclamação contra os anjos do ano passado? A ínfima minoria étnica muçulmana presente em Famalicão não deve ter sido, pois parece que cada um possui não um, mas dois arcanjos da guarda, um à direita e outro à esquerda, que é suposto cumprimentarem todos os dias.
Não me estou a lembrar de outras minorias ou maiorias que se pudessem ofender com outros símbolos mais a propósito de uma festa claramente cristã como é o Natal. Que mal é que faz um Presépio? Será que o Menino Jesus se portou mal?
Crise económica ou crise de identidade?
Estranho em instituições como a Câmara Municipal ou a Associação Comercial que lá terão os seus critérios de escolha dos motivos para iluminar as nossas ruas, mas será que pretendem aproveitar as mesmas luzes para a próxima Feira Grande?

Sei que em algumas cidades emblemáticas da Europa e dos Estados Unidos não estão a ser permitidos os Presépios na praça pública e até se procura substituir a palavra Christmas (Natal) por um sucedâneo que não contenha a referência etimológica de Cristo (Christ). Assim como nas escolas francesas se quis impedir às muçulmanas usar o véu, assim se apagam referências às raízes cristãs remetendo-as para o fundo das sacristias, para o foro familiar ou individual. Assim se apagavam nas ditaduras dos dois lados do espectro político as memórias históricas que não interessavam ao regime.

Sim. Já vi essas personalidades públicas e institucionais atrás do pálio, de opa vestida e mesmo na lista do Lausperene. Por isso, estranho que à hora de escolher para a Cidade uma decoração de um evento como o festejo do Nascimento de Cristo, num país que também se diz quase totalmente cristão, pareça que há vergonha ou medo de o assumir.
Talvez me engane. Talvez seja simples falta de gosto.

29/11/2008

OBESIDADE DE VERÃO

A menina é gorda, gorda, gorda
Pneu da barriga esbordando
Do calção de cinta descida
Pneu do estômago dançando
Sobre a celulite do umbigo
Espremida na t-shirt bem curtinha
Lycra comprada nos chineses
Muito baratinha
É 1 euro! É 1 euro!
Ai desculpe! É de marca, Armani Jeans
Não tinha reparado…
Sabe como é: o chinês vende de tudo…

Vai fremosa e não segura
A coxa gorda, gorda
Esmagando a sandália alta, alta
E abana, abana mais celulite
O silicone ao sol (quarenta graus!)
Admira como não derrete…
8 mil euros! É oito mil euros!
Não tem cancro de pele!
Beba água do luso!
No Tallon! Na Dermoestética!

Foi caro? Sim
Mas o que é bonito é pra se ver!

Bonito?!

5/08/2007

A PROPÓSITO DE MADIE MCCANN

Espero sinceramente que, quando estas linhas forem publicadas, Madeleine McCann já tenha aparecido sã e salva. Todos ansiamos por isso. Creio que, estes dias e apesar de tudo, o primeiro pensamento ao abrir dos noticiários tenha ido para a menina inglesa e seus pais. “Já se saberá alguma coisa da pequena?”
É surpreendente esta capacidade do nosso povo de se interessar, compadecer e acompanhar o seu próximo. Esta atitude permanente de empatia com o vizinho, o transeunte, conhecido ou não. Todos são próximos, potenciais amigos, seja ele o homem do talho, a pessoa que se senta ao lado no comboio ou no autocarro, aquele que pede uma informação na rua, a senhora que leva o carrinho com um bebé tão amoroso, a menina Alicinha da Junta de Freguesia ou a família inglesa que perdeu a filha de quatro anos.
Uma coisa não conseguimos entender: como é possível que uns pais vão jantar descansados ao restaurante e deixem três crianças tão pequeninas sozinhas num apartamento? São estrangeiros. Só pode. Outro estilo.
Em Portugal, não se proíbe às crianças estar num restaurante, ressalvando as excepções que já se converteram a outros usos.
Em Portugal, preocupamo-nos com todos aqueles em quem pousa o nosso olhar: não nos importamos se, ao abrandar a marcha para ver se naquele acidente precisa da nossa ajuda, provocamos uma fila de quilómetros; há sempre alguém que tira fotos de telemóvel a um estranho que pode andar a perseguir meninas loirinhas em Sagres; sabemos que a rapariga do café do lado está grávida, de quantos meses, se é menino ou menina e que a futura mãe é capaz de estar a trabalhar demais; que a senhora do andar de baixo partiu a perna e tem o filho doente; que os meninos da porta em frente chegam sempre às 18.00 horas, etc, etc.
Voyeurismo? Mera curiosidade? Não ter que fazer? Penso que não. Solidariedade é talvez uma definição demasiado pobre. Não encerra a componente de carinho e atenção, de abraço ao outro que não repara em diferenças ou distâncias. Sentido de Família. Esse pressuposto de raiz cristã de que todo o homem é meu irmão. “Acaso sou eu guarda do meu irmão?” – foi a pergunta de Caim. Em Portugal, não conseguimos evitar esse reflexo imediato e comportamental que se pode traduzir na frase: “Eu sou guarda, responsável, amigo de qualquer ser humano!” Imediatamente toda a gente se põe à procura, coloca a menina sob a protecção de Nossa Senhora, vai a Fátima a pé, se for preciso.
Estas considerações são demasiado cor-de-rosa, dirão. Há tanta indiferença nas nossas cidades, nos locais de trabalho, nas próprias famílias. É. Mas basta passar umas semanas na Europa e assustamo-nos com a diferença: o silêncio dos autocarros onde cada um lê para si, headphones a tapar os ouvidos; vamos pela rua e o nosso olhar não consegue contacto nem sorrisos dos que se cruzam connosco. Interessarmo-nos por alguém pode ser mal interpretado e sinal de má educação.
Pois bem, cá está uma competência, como se diz agora, que havemos de não perder e cultivar. Pelos vistos, tem até vantagens económicas, de acordo com os operadores turísticos.  Somos conhecidos e apreciados por isso. A própria comunidade inglesa o reconheceu.
Como é que faz para potenciar tal competência? Está-nos no sangue.
Às vezes, basta apenas um sorriso que quer dizer “Bom dia! Como está?” com a presença, a companhia, talvez a oração no olhar.
Outras, a disponibilidade: “Em que posso ajudar? Vejo que está cansado/a. Acontece ou precisa de alguma coisa?”
Outras ainda, oferecendo momentos de repouso e convívio: um almoço de domingo em que há coca-cola e bolo de morangos para além de um bom cozido à portuguesa; ou então apenas um lanche após o trabalho, um cafezinho a meio da manhã, na pausa. As mães sabem fazer isto na perfeição. Conseguem conversar com um filho enquanto descascam batatas ou passam a ferro. 
Talvez, aos que não conseguimos, nos falte esse coração de mãe…

15/05/2007

FALTA AQUI QUALQUER COISA!

Passava há dias pelo Parque de Sinçães na minha caminhada anti-colesterol, embrenhada em pensamentos vários, enquanto alguns transeuntes se dirigiam preocupados ao Centro de Emprego, outros praticavam as suas corridinhas, uma avó observava dois netos a brincar nos baloiços… e deparo com uma parede vazia.
Falta aqui qualquer coisa!
O que ficava aqui bem era…uma estátua a Nossa Senhora!
Parece impossível que ainda ninguém nesta Cidade se tenha lembrado!
Já temos uma série de rotundas, de fontes, muitas estátuas a gente mais ou menos desconhecida e não há em V.N. de Famalicão uma capelita dedicada expressamente à Mãe de Deus. Dantes existia a Igreja da Lapa – bem bonita! – mas transformou-se em Museu de Arte Sacra. Não sei se ganhou a Cultura, já que os museus, se não são visitados, acabam por não passar de armazéns de obras de arte…
O que é certo, é que nesta Cidade existe de facto grande devoção à Virgem Maria - como é apanágio de qualquer Português que se preze - manifestada publicamente pela Rua Direita que se encarrega de comover todo o Concelho durante a procissão de velas de 12 de Maio, pelos Bombeiros de Cima que sempre exigiram que a Senhora de Fátima fosse homenageada pela corporação com todas as sirenes disponíveis e por todos os tapetes de flores que têm aparecido espontaneamente no seu trajecto.
Pois bem, acho que já é hora de colmatar esta lacuna! Este 13 de Maio é o 90º aniversário das Aparições de Fátima e até Outubro ainda temos tempo de lançar a ideia, pôr mãos à obra e fazer a inauguração.
E agora as minhas sugestões:
a) Havia de ser no Parque de Sinçães! Pensei na Rotunda, mas já tem estátuas que chegue; o Parque da Juventude também. Nada de a meter na próxima rotunda ou num cantinho escondida! Penso que devia estar num espaço aprazível, ao alcance das crianças que lhe fossem levar flores, com um ou vários bancos de jardim para as pessoas idosas do Centro das Lameiras poderem descansar do passeio a rezar o terço, suficientemente visível aos transeuntes desempregados e que não envergonhe a sensibilidade estética dos frequentadores da Casa das Artes.
b) Podia ser uma Senhora de Fátima, mas não obrigatoriamente. Uma Senhora da Misericórdia, se a Santa Casa se lembrasse que também não tem ainda nenhum monumento. Mas o que ficava mesmo, mesmo, mesmo bem era que a Câmara Municipal investisse neste projecto: “Maria, Mãe da Cidade” – uma Nossa Senhora sentada num banco de jardim, com o Menino ao colo a brincar com a romã e o cacho de uvas – símbolos da Cidade e da unidade, da solidariedade, da laboriosidade, da amizade….
Que tal? Vai ser mesmo preciso fazer uma subscrição pública?

3/05/2007

KZ, a Liberdade e os balneários

Devo dizer, em jeito de advertência, que as considerações que se seguem ficaram guardadas durante uma semana pelo seu teor polémico, mas pensei, por fim, que deviam vir à luz estando nós num ano dedicado à Igualdade de Oportunidades.
KZ é o título de um documentário emitido na RTP2 no passado dia 23 de Abril a propósito do último dos campos de concentração nazis a ser libertado. Vi pouco, é preciso dizer a verdade. Embora o objectivo seja preservar a memória, estes programas sobre o Holocausto cansam. À força da repetição do horror, a sensibilidade habitua-se até à indiferença e ao tédio. Ainda apanhei a reconstituição da entrada dos prisioneiros no campo. Eram-lhes retirados os seus pertences, toda a roupa e seguidamente deviam dirigir-se ao banho, completamente nus, em fila, ao ar livre e com temperaturas negativas. É preciso acrescentar que vinham de uma viagem longa, sem quaisquer condições ou meios de higiene. Para além do objectivo próprio do banho, este protocolo constituía a 1ª das humilhações, forma de os deixar indefesos e conscientes da sua impotência perante os agressores, de lhes arrebatar os sinais da própria identidade. O banho era comum, numa sala com chuveiros no tecto por onde umas vezes saía água gelada, outras o tal gás KZ que matava toda aquela multidão angustiada.
A todos nos impressiona, creio, o gesto indefeso das figuras nuas esquálidas, tentando tapar-se a todo o custo perante os olhares inquisidores dos soldados nazis. Choca-nos talvez pela gratuitidade de mais este sofrimento infligido, pela humilhação, pela negação de um mínimo de privacidade, pela anulação de qualquer assomo de personalidade, substituída pelo número gravado no braço.
Pois bem, com alguma distância, a história repete-se no nosso quotidiano sem nos darmos conta, sem nos revoltarmos ou resistirmos à prepotência de situações consumadas.
Esta semana foi a 3ª adolescente que se veio queixar de que a obrigavam a tomar banho nua, juntamente com as colegas, depois das aulas de Educação Física. Devo dizer que esta menina é de V.N. de Famalicão e tem 11 anos; as outras duas têm 15 e 13 e frequentam estabelecimentos de ensino de Barcelos e Riba d’Ave, respectivamente. Os procedimentos repetiram-se com as três: queixaram-se aos pais, dizendo que não gostavam de ser avaliadas no seu corpo e suas transformações próprias da idade pelas outras meninas e se não podiam lavar-se em casa. O problema não era a necessidade de higiene, que todos prezamos como necessária, em especial após os esforços da ginástica, mas a falta de condições de privacidade.
Acontece que os balneários destes estabelecimentos de ensino – não se percebe porquê – há uns anos a esta parte são constituídos por uma sala de chuveiros, com água quente, é certo, mas sem qualquer divisória, porta ou cortina. Ou seja, em tudo semelhantes aos do documentário KZ, se é que me faço entender. O mesmo se passa com o vestiário. Porquê?
Dizem que na educação do pós-25 de Abril se aboliram os tabus, que não se deve prestar atenção a meninas púdicas ou pais complacentes e atrasados, mas….que é feito do direito à diferença? Tornou-se tabu reivindicar o direito a não expor o próprio corpo a olhares indiscretos, o direito à intimidade, à sensibilidade? Esqueceu-se que o corpo é expressão da pessoa e que a sua exposição forçada se assume como violação humilhante?
Entretanto, é imperioso respeitar escrupulosamente as normas europeias que exigem não publicitar os dados pessoais, sacrilégio não prever as sensibilidades de muçulmanos, gays e passarinhos. Atenção, que considero essas normas sinal de progresso e uma necessidade, como é, por exemplo, a eliminação das barreiras arquitectónicas para os deficientes. Pergunto-me é porque é que não se defende o mesmo tipo de atitude relativamente às crianças, adolescentes e pais que requerem um tratamento que todos exigimos nos ginásios privados, nos hospitais privados, nos lares de 3ª idade, nos hotéis…Sabiam que, nestes locais, o respeito do direito à privacidade é índice de Qualidade e a falta dele está classificada nos Manuais publicados pela Segurança Social como sinal de violência infligida aos utentes?
A razão não é económica, já que umas divisoriazitas não têm assim um preço tão elevado. Os pais das adolescentes que referi foram falar com os directores de turma com o objectivo de conseguir autorização para as filhas irem tomar banho a casa. A resposta foi negativa e prepotente: o banho é obrigatório e se não o tomarem no balneário da escola têm falta injustificada a Educação Física. Razões de disciplina. Pelos vistos, se houvesse excepções, muitas meninas imitariam a atitude das citadas…
Espanta-me é que num contexto de Educação Sexual actualizada se não repare que, perante a necessidade imperiosa de evitar a SIDA e as gravidezes indesejadas de adolescentes, todos os meios que contribuam a atrasar o início de uma vida sexual activa se hão-de considerar válidos. Inclusive o dar voz ao desejo natural de pudor manifestado por umas meninas, representantes de uma suposta minoria.
Afinal, somos ou não somos um País Livre?

3/05/2007