segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A PROPÓSITO DE MADIE MCCANN

Espero sinceramente que, quando estas linhas forem publicadas, Madeleine McCann já tenha aparecido sã e salva. Todos ansiamos por isso. Creio que, estes dias e apesar de tudo, o primeiro pensamento ao abrir dos noticiários tenha ido para a menina inglesa e seus pais. “Já se saberá alguma coisa da pequena?”
É surpreendente esta capacidade do nosso povo de se interessar, compadecer e acompanhar o seu próximo. Esta atitude permanente de empatia com o vizinho, o transeunte, conhecido ou não. Todos são próximos, potenciais amigos, seja ele o homem do talho, a pessoa que se senta ao lado no comboio ou no autocarro, aquele que pede uma informação na rua, a senhora que leva o carrinho com um bebé tão amoroso, a menina Alicinha da Junta de Freguesia ou a família inglesa que perdeu a filha de quatro anos.
Uma coisa não conseguimos entender: como é possível que uns pais vão jantar descansados ao restaurante e deixem três crianças tão pequeninas sozinhas num apartamento? São estrangeiros. Só pode. Outro estilo.
Em Portugal, não se proíbe às crianças estar num restaurante, ressalvando as excepções que já se converteram a outros usos.
Em Portugal, preocupamo-nos com todos aqueles em quem pousa o nosso olhar: não nos importamos se, ao abrandar a marcha para ver se naquele acidente precisa da nossa ajuda, provocamos uma fila de quilómetros; há sempre alguém que tira fotos de telemóvel a um estranho que pode andar a perseguir meninas loirinhas em Sagres; sabemos que a rapariga do café do lado está grávida, de quantos meses, se é menino ou menina e que a futura mãe é capaz de estar a trabalhar demais; que a senhora do andar de baixo partiu a perna e tem o filho doente; que os meninos da porta em frente chegam sempre às 18.00 horas, etc, etc.
Voyeurismo? Mera curiosidade? Não ter que fazer? Penso que não. Solidariedade é talvez uma definição demasiado pobre. Não encerra a componente de carinho e atenção, de abraço ao outro que não repara em diferenças ou distâncias. Sentido de Família. Esse pressuposto de raiz cristã de que todo o homem é meu irmão. “Acaso sou eu guarda do meu irmão?” – foi a pergunta de Caim. Em Portugal, não conseguimos evitar esse reflexo imediato e comportamental que se pode traduzir na frase: “Eu sou guarda, responsável, amigo de qualquer ser humano!” Imediatamente toda a gente se põe à procura, coloca a menina sob a protecção de Nossa Senhora, vai a Fátima a pé, se for preciso.
Estas considerações são demasiado cor-de-rosa, dirão. Há tanta indiferença nas nossas cidades, nos locais de trabalho, nas próprias famílias. É. Mas basta passar umas semanas na Europa e assustamo-nos com a diferença: o silêncio dos autocarros onde cada um lê para si, headphones a tapar os ouvidos; vamos pela rua e o nosso olhar não consegue contacto nem sorrisos dos que se cruzam connosco. Interessarmo-nos por alguém pode ser mal interpretado e sinal de má educação.
Pois bem, cá está uma competência, como se diz agora, que havemos de não perder e cultivar. Pelos vistos, tem até vantagens económicas, de acordo com os operadores turísticos.  Somos conhecidos e apreciados por isso. A própria comunidade inglesa o reconheceu.
Como é que faz para potenciar tal competência? Está-nos no sangue.
Às vezes, basta apenas um sorriso que quer dizer “Bom dia! Como está?” com a presença, a companhia, talvez a oração no olhar.
Outras, a disponibilidade: “Em que posso ajudar? Vejo que está cansado/a. Acontece ou precisa de alguma coisa?”
Outras ainda, oferecendo momentos de repouso e convívio: um almoço de domingo em que há coca-cola e bolo de morangos para além de um bom cozido à portuguesa; ou então apenas um lanche após o trabalho, um cafezinho a meio da manhã, na pausa. As mães sabem fazer isto na perfeição. Conseguem conversar com um filho enquanto descascam batatas ou passam a ferro. 
Talvez, aos que não conseguimos, nos falte esse coração de mãe…

15/05/2007

Sem comentários:

Enviar um comentário