Hoje é Dia da Liberdade! Já ouvi o Hino Nacional, tocado magistralmente pela Banda de Música, ouvi os discursos sobre a crise e o apelo ao patriotismo dos nossos deputados, do nosso Primeiro e do Presidente da República e…vai um silêncio de feriado na nossa Cidade…
Já que se faz silêncio, vou falar de S. Nuno Álvares Pereira, que não morava nas Caldinhas, nem foi escuteiro, nem sequer viveu em clausura. Agora, a História que se ensina não fala das pessoas nem de heróis. Fala da economia, das circunstâncias, das condicionantes, das Crises, das classes sociais em conflito, da cultura do tempo, mas não dos actores em presença. Ou pelo menos, não da vida dos agentes de mudança. Penso que nos fazem falta essas biografias. Perceber como é que outros homens e mulheres, que no fim são da mesma massa que nós, conseguiram superar essas circunstâncias do seu tempo, conseguiram superar-se a si próprios em serviço de uns ideais que a nós nos podem parecer estranhos.
Que heróis temos? Que modelos pomos como referência? O futebol levanta, de vez em quando, a nossa auto-estima, mas foi preciso vir o Scolari ensinar-nos cantar o Hino e a pôr a Bandeira Nacional nas janelas para tirar a vergonha dos símbolos da Pátria.
A minha professora primária, a D. Alexandrina, contava-nos as histórias dos heróis da nossa História (passe o pleonasmo). Por exemplo: de como o D. Nuno era Condestável de D. João I, o que significa que era como que o Comandante em Chefe das Forças Armadas do Reino. Pelos vistos era um bom profissional do exército e um bom estratega. A Crise de 1383-85 não foi nenhuma “pêra-doce”: corríamos o sério risco de estarmos hoje a falar castelhano. Dizia a D. Alexandrina que na Batalha de Aljubarrota a proporção era de 5 castelhanos a cavalo contra 1 português a pé, mas o D. Nuno Álvares Pereira aplicou a Táctica do Quadrado que tinha aprendido dos ingleses – o que significa que estava actualizado na sua profissão – e venceu essa batalha e ainda a de Trancoso, Atoleiros e Valverde.
As batalhas, agora, soam-nos a jogos de computador e Playstation. Só trememos quando há um ataque da Al Quaeda ou é preciso enviar soldados para o Afeganistão. Tive duas alunas que foram para a tropa, mas a guerra é uma ideia longínqua para o comum dos mortais – graças a Deus – e a profissão militar parece qualquer coisa de inútil. Como extravagante a ideia de que um militar possa ser santo. É por isso que D. Nuno Álvares Pereira é um santo pouco ortodoxo. Um homem que trabalhou na guerra, que matou gente, pode ser santo? Pode. Nós é que fomos invadidos, ele estava a defender o seu País, proibiu os saques e chegou mesmo a auxiliar as vítimas dos inimigos. E mais, fez o seu trabalho com sentido profissional e com honra. Encanta-me o pormenor da cantarinha da capela de S. Jorge que ele mandou lá pôr para matar a sede aos transeuntes, recordado da que tinham passado naquele 14 de Agosto de 1385. Coisas grandes e coisas pequenas… Também gosto daquele episódio de Valverde, em que andavam à procura dele para iniciar a batalha e o foram encontrar atrás de uma rocha a rezar. Não se consegue trabalhar bem nem combater sem a ajuda de Deus, mas com Ele, até a espada trabalha melhor. Faz-nos falta este santo guerreiro num país de brandos costumes que parece que tem medo de ousar lutar.
E a parte em que D. Nuno casou, teve três filhos, dos quais dois morreram e uma filha casou com D. Afonso, filho bastardo de D. João I, que viriam a dar origem à Casa de Bragança? E o facto de ser Conde de Barcelos, Conde Ourém e de Arraiolos, de ser dono de dois terços do território português? Um homem viúvo, rico e de sucesso pode ser santo? Parece que sim. “Não se valeu dos títulos de nobreza, prestígio e riqueza para viver num clima de luxos e grandezas”. (cf. Nota da Conferencia Episcopal)
Já viúvo, já depois da conquista de Ceuta em que também participou com 55 anos, já depois da morte da filha, retirou-se para o Convento do Carmo, como irmão donato para ir atender os pobres como porteiro. Diz-se que teve aí origem a “sopa dos pobres”. Diz-se também que D. Duarte, filho de D. João I, o convenceu a que não andasse mendigar esmolas para o convento como era seu desejo. Frei Nuno foi santo no convento? Também parece que sim. O que é certo é que a sua fama de santidade já era enorme à sua morte (que se deu a 1 de Abril de 1431, num dia de Páscoa) e que o próprio D. Duarte, que o conhecia desde Infante, pediu o início e lutou pelo seu processo de canonização apresentando uma oração e um panegírico redigidos pelo Infante D. Pedro e uma grande lista de milagres atribuídos à sua intercessão. No entanto, até o milagre da canonização é uma coisa pequena e normal: curou um olho queimado com óleo de fritar. Talvez porque as lutas diárias com os tachos e as frigideiras sejam as que realmente importam à hora de servir e amar, no concreto, uma família que está à espera do almoço.
25/04/2009
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