Dizem que em determinada aldeia do nosso país havia um agricultor muito avarento, como se verá pela história que segue. Esse senhor tinha um burro, que é animal trabalhador sem grandes exigências laborais ou de manutenção alimentar. Adequado, portanto, à condição económico-agarrada de seu dono. No entanto, em situação de crise, vale tudo e o velho agricultor resolveu pôr o burro a dieta, que agora estamos no Verão e até é bom perder uns quilitos para perder alguma celulite acumulada. Vai daí, foi diminuindo a ração da palha ao pobre do asno: menos um fardo por semana, menos dois na outra e por aí adiante até que o burro magrinho já quase que não se tinha nas patas. Por fim, depois de duas semanas sem alimento, o animal apareceu morto no local de trabalho. Conclusão do dono: “- Que pena! Agora que ele já tinha aprendido a trabalhar sem comer….”
A ideia não é falar de anorexias nervosas ou dos direitos dos animais, mas dessa outra doença do século que - embora apenas afecte alguns… - consiste em não ter aprendido a largar o trabalho e descansar.
Uma das grandes conquistas da civilização judaico-cristã é o dia de descanso semanal: no nosso caso, o Domingo. Algo insólito para os chineses, por exemplo, que verificamos não saberem o que significa uma semana de 40 horas ou 22 dias de férias - outras conquistas dos trabalhadores que consideramos um avanço civilizacional de grande monta. Não são os únicos, pois, frequentemente, os empresários, as mães e outros trabalhadores por conta própria também desconhecem essas limitações ao horário de trabalho e terminam irremediavelmente exaustos.
É aí que entra a lição do nosso amigo asinino: é preciso cuidar do corpo que é um instrumento de trabalho como outro qualquer e também precisa de “papas e descanso”. Garantir uma alimentação equilibrada, cuidar da saúde, fazer desporto e aprender a repousar são deveres de qualquer trabalhador que se preze. Descansar não é sinónimo de não fazer nada – o que aliás se tornaria extremamente aborrecido e até mesmo cansativo. Mudar de actividade também relaxa e dedicar algum tempo à família, ao desporto, a um passatempo, à leitura, ir a uma festa ou ao cinema, dormir mais um pouco, passear…mais do que luxos, acabam por ser deveres. O mesmo se poderia dizer desse costume - que convém não perder - de fazer as refeições em família, sentados à mesa. Hora de parar, de estar juntos, de conversar, de comer devagar e com correcção. Que oportunidades de repor as forças e de educar se perdem por não querer ter esse trabalho…
E depois, porque não desligar a TV mais cedo e ir para a cama? Quantas vezes nos podem dizer, mais ou menos explicitamente, perante o nosso mau-humor ou impertinência: “-Deixa, que o teu mal é sono!” Talvez tenhamos estado a cortar na nossa ração de horas de dormir….ou então na ração dos outros…
A propósito, - e só para aqueles que têm a humildade de tentar encontrar esses tempos de reposição de forças - conta-se de João Paulo II que, um dia, ao fim da tarde, e ao vê-lo vir curvado e a arrastar os pés, alguém lhe disse compassivamente: “- Vossa Santidade está demasiado cansada! Tem de descansar!” Ao que o Papa respondeu: “- Se a esta hora não estivesse cansado, é porque não teria cumprido o meu dever”.
19/08/2010
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