“O Natal não é um aniversário, nem uma recordação. Também não é um sentimento. É o dia em Deus faz um Presépio em cada alma”. – assim o define Enrique Monasterio no seu livro “Quem fez o presépio?”, editado em Portugal pela DIEL.
Um Presépio é todo um microcosmos, como o é o coração de uma criança. Todas as coisas estão aí presentes. A ideia de Francisco de Assis quando arquitectou a primeira representação – ao vivo - do nascimento de Jesus era talvez só isso: reunir num estábulo as figuras de Maria, José, um bebé para fazer de Menino, ovelhas, pastores, Reis Magos. O objectivo era o mesmo dos nossos audiovisuais: pôr diante dos olhos o acontecimento mais transcendente da História numa espécie de maquete que qualquer criança ou analfabeto pudesse facilmente interpretar e recordar. Já dizem os chineses que “uma imagem vale mais que mil palavras” e então se for a 3 dimensões…
Um Presépio faz-se devagar, sem pressa, tal como se cria um universo para rodear o Menino que vai nascer, tal como uma mãe decora o quarto de um bebé que traz no seio.
Começa-se no início do Advento, pela Imaculada. Aí, “- Temos de ir ao musgo! Quando é que vamos ao musgo?”- reclamam as crianças da casa. Pretexto para um passeio pelas matas à procura do tapete verde dos presépios que se prezam. Se encontrarmos um ramo de sobreiro, já servirá de Árvore de Natal.
Pomos o nosso Presépio na sala, num lugar central e visível, que entre pelos olhos. Perto de um sofazito onde possamos sentar-nos a contemplar, a mudar uma ovelha de sítio, a brincar com os patos que nadam no lago. Num dia, aproximo um pastor, no outro uma das mulheres que leva um cesto à cabeça ou os Magos que são os que vêm de mais longe. Estão lá representadas muitas profissões: além dos pastores com ovelhas e cabras, há músicos, comerciantes, uma vendedora de castanhas, um moleiro com o seu burro, agricultores produtores de melancias, de galinhas, profissões liberais e até Reis…Cada um leva os sinais e o fruto do seu trabalho como presente para o Menino. Tem quem leve apenas uma flauta ou até o seu olhar, porque não tem outra coisa para oferecer. Na cidade e nas aldeias tem mais gente que ficou em casa ou ninguém lhes disse. Já saberão por todos os que puderam ver o Príncipe da Paz. Desde o ano do 11 de Setembro também lá tenho o Bin Laden com uma bomba na mão. (Por isso é que não o encontraram ainda.) Serve-me para rezar e esperar que a ponha devagar junto de Jesus e ela não estoure nunca mais em lado nenhum.
E depois, tem anjos, muitos anjos, a rezar, a cantar, a tocar todo o tipo de instrumentos, uns grandes e outros pequeninos, mas rivalizando todos por estar cada um mais perto da gruta para verem bem o Menino Deus. Também ponho passarinhos e umas pombas brancas que vieram num bolo de noiva e flores e umas pinhas pequeninas que significam isso mesmo: que queremos estar assim como uma pinha, ali juntinho do boi e do burro a tentar aquecer a mangedoura, sem comer a palha, claro está.
Ao lado do Presépio, ponho um cesto com mais palhinhas ou com “beijinhos de amor” – uns búzios que aparecem na Póvoa de Varzim. São para pormos junto do Menino quando nos portamos bem, isto é: quando o trabalho foi bem feito, quando nos esforçámos por estar a horas, por fazer boa cara, por prestar um serviço, por estudar as horas previstas, por ajudar um amigo, por comer o que nos serviram sem resmungar, por rezar um pouco…e tantas coisas mais.
Que me diz o Presépio? Todo um mundo está nele contido que às palavras lhes custa a resumir. Não disse que era um microcosmos? Diz que Deus veio a este nosso mundo e salvou-o – ainda que nos custe a acreditar -, que todas as coisas são boas, pois são susceptíveis de serem adorno e presente para o Menino, que a Família não se pode dispensar, que todas as pessoas – mesmo o Bin Laden - podem estar a caminho de Belém, que qualquer trabalho e esforço é importante e valioso desde que sirva para o pôr aos pés de Jesus, que o centro de uma vida, de todo o universo, dos olhares dos anjos e dos homens está aí, deitado numa manjedoura, carente e cheio de frio, à minha espera.
Dezembro de 2008

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