domingo, 3 de novembro de 2013

Hotspots para Deus

 - Ele é um hotspot para Deus! – saiu-se um dos meus sobrinhos num dos almoços de domingo acerca de uma pessoa nossa conhecida, sem que tal expressão parecesse um insulto ou crítica.
 – Ele é um quê?!
- Sim! Um hotspot! Não sabes um que é um hotspot, uma zona wi fi, um router?
E tentou explicar-me, como se eu fosse muito infoexcluída:
- Nunca viste nos centros comerciais, nas universidades? Tu chegas lá e está indicado “zona wi fi” ou “hotspot” de tal empresa e basicamente podes ligar-te à net grátis com o teu computador, telemóvel, tablet, play station….  Essa tal pessoa é como um hotspot para Deus.
É. Parece incrível, mas de facto existem pessoas que nos ligam automática e insensivelmente a Deus: o Papa, um pároco, uma avó, um/a catequista, um/a amigo/a e talvez não precisamente por essa ordem. Não é que não tenham defeitos ou sejam um modelo de virtudes ou passem a vida a pregar. Não. São pessoas em quem nós reconhecemos que têm experiência de como é Deus e que desejam que também nós O procuremos e encontremos. Instintivamente, sabemos que rezam por nós e, se temos oportunidade, já estamos a contar-lhes a nossa vida toda.
São pessoas a quem recorremos para desabafar, tirar uma dúvida, pedir um conselho, um favor, que reze por um assunto que nos preocupa ou nos ensine a fazê-lo. É como se emitissem um sinal wi fi: um misto de interesse, carinho, compreensão, de escuta, acolhimento, esperança que torna Deus acessível sem necessidade de passwords. O sinal wi fi pode ser bom, fraco ou ruim, médio, excelente, com ou sem intermitências, de acordo com a qualidade do hotspot..
Os santos estão assinalados como hotspots com sinal potente e contínuo. Porquê? Porque estão ao rubro na arte de amar e são reconhecidos por isso. Alguns deles universalmente e o seu raio de ação não está limitado pelo espaço ou pelo tempo. Basta pensar no nosso António de Lisboa que viveu na Idade Média e continua a influenciar a vida de pessoas de todos os continentes, tanto ou mais que o seu amigo Francisco de Assis.
Mas para todos nós, está nas nossas mãos ser hotspots para Deus: basta ligarmo-nos a esse “Fogo que arde sem se ver” de que falava Camões. Entrar na rede. Quem se encanta, fica encantador. E começa logo a emitir esse sinal imitando aquilo que viu e ouviu.

No dia de Todos os Santos, lembremo-nos afinal de todos esses hotspots, uns mais conhecidos outros menos, muitos da nossa própria família, alguns com um nome igual ao nosso, outros que passam por nós todos os dias e que vão estabelecendo esses oásis onde o Céu fica mais perto. Vale a pena saber onde estão, reconhecê-los, aproveitar a acessibilidade que nos proporcionam e a sua ajuda e exemplo para nos tornarmos também nós hotspots para Deus.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

E SE NOS LEVANTÁSSEMOS?

Por vezes um anúncio faz surgir em nós reflexões inesperadas. É esse um dos objetivos do marketing e já se sabe que, no caso desta campanha contra o sedentarismo, a ideia é vender mais refrigerante. Mas a pergunta não deixa de incluir um certo acento de revolta contra o status quo capaz de provocar consequências imprevisíveis a níveis insuspeitados.
E se de facto começássemos por nos desprender dessas inúmeras cadeiras que nos tiranizam e nos impedem de sermos nós próprios a ir atender um telefone que está a tocar há séculos e ninguém se decide a levantar? Desses sofás em que nos enterramos horas a ver uma televisão improcedente em vez de ir arrumar a cozinha, fazer o café, ajudar a levantar a mesa ou simplesmente ir dormir que o nosso mal é sono? Do assento do carro, para fazer uma caminhada e ter aquela conversa com um filho ou um amigo; do lugar no autocarro – seja ele à janela ou na coxia - para o ceder a alguém mais idoso, carregado ou simplesmente necessitado?
São pequenas coisas corriqueiras e habituais. Frequentes. Reais. Concretas. Acessíveis, apesar de nem sempre fáceis. Ocasiões de fazer a diferença, de alterar estatísticas, de alterar o ambiente, de viver valores como o Serviço, a Generosidade, o Auto-Domínio, a Amizade, o Respeito e tantos outros, de oferecer gratuitamente o presente de um pouco mais de atenção a quem está ao lado.
O fundador do Opus Dei, S. Josemaria Escrivá, o “santo da vida corrente” como lhe chamou João Paulo II e que festejamos a 26 de junho, recordava que não havíamos de fazer como Tartarin de Tarascon que desejava matar leões… nos corredores da própria casa. Isto é: situações extraordinárias, poucas vezes se apresentarão na nossa vida; o nosso é viver o ordinário, o quotidiano de forma extraordinária, sobrenatural. Fazemo-lo quando nos levantamos acima de nós próprios e atuamos como filhos de Deus e por amor do nosso Pai. Assim corresponde o cristão à sua identidade batismal: deixando-se levantar às alturas da santidade.
A vocação de qualquer de nós à santidade, a subir mais alto, a “ser mais altos, ser maiores”, na feliz expressão de Florbela Espanca, constitui o núcleo fundamental do magistério do Concílio Vaticano II e, por ter dito o mesmo desde 1928 e mostrado como se punha em prática, S. Josemaria Escrivá de Balaguer foi unanimemente reconhecido como um precursor do Concílio.
Como afirmou João Paulo II em 2002, “a fábrica, o escritório, a biblioteca, o laboratório, a oficina, o lar podem transformar-se em outros tantos lugares de encontro com o Senhor, que escolheu viver durante trinta anos na obscuridade. Poderia, porventura, pôr-se em dúvida que o período passado por Jesus em Nazaré fosse já parte integrante da sua missão salvífica? Portanto, também para nós, o quotidiano, na sua aparente uniformidade, na sua monotonia feita de gestos que parecem repetir-se sempre na mesma, pode adquirir o relevo de uma dimensão sobrenatural e ser transformado desse modo”.
Transcrevo alguns pontos de 2 livros conhecidos de S. Josemaria: «Tens obrigação de te santificar. - Tu, também. (...) A todos, sem exceção, disse o Senhor: 'Sede perfeitos como Meu Pai Celestial é perfeito'» (Caminho, n. 291); «estas crises mundiais são crises de santos» (ibid., n. 301).Hoje não bastam mulheres ou homens bons. Além disso, não é suficientemente bom quem se contenta em ser quase... bom; é preciso ser "revolucionário". Ante o hedonismo, ante a carga pagã e materialista que nos oferecem, Cristo quer inconformistas! Rebeldes de Amor!” (Sulco, nº 128).

Ou seja: e…se nos levantássemos?