O meu avô tinha uma funerária. Em Famalicão, diz-se que era armador. Porque armava os caixões, acompanhava funerais e também armava procissões, vestia anjinhos, etc, etc. Mas acontece que o desejo do meu avô era que o filho fosse para médico. O meu pai, que sempre teve muitos outros sonhos, usava o seguinte argumento:
- Como é que eu hei-de ser médico? Quem é que confiar num médico cujo pai tem uma funerária?
É que numa funerária, quer se queira quer não, os mortos são uma mais-valia para o proprietário, o seu ganha-pão, o lucrozinho, estão a ver?
Ainda me lembra aquele cangalheiro, personagem da banda desenhada do Lucky Luke que andava sempre munido da fita métrica para calcular a medida dos futuros caixões dos transeuntes. Nenhum de nós se sentiria confortável nas mãos de semelhante “alfaiate”…
E como nos sentiríamos se, ao entrar num hospital, num lar de idosos ou num centro de reabilitação de deficientes soubéssemos que tinham uma parceria com a funerária da esquina?
A propósito ou não do triste passamento de Eluana, a rapariga italiana que havia 17 anos vivia em estado vegetativo, têm aparecido várias achegas propondo a eutanásia como solução. Não surpreende este emergir de um tema tão controverso no meio das preocupações da Crise económica. Quer queiramos, quer não, e embora pareça cruel afirmá-lo, cada dia de internamento de Eluana – como o de qualquer doente – custaria à volta de 125€ no SNS português.
Convenhamos que, por trás da suposta compaixão pelo doente que supostamente diz ou sugere que deseja que o ajudem a morrer, podemos perguntar: “- Porque é que quer ou quis precisamente essa ajuda?”
Choca mais ainda o elogio recorrente da “coragem” contida nesse pedido. Mais valor demonstraria então o marido da uma mulher-a-dias que tive, alcoólico, desempregado – batia na mulher – que se enforcou sozinho na adega, digo eu.
Custa muito ver sofrer, impressionam as condições de solidão, de desprezo, de negligência em que vivem muitas pessoas; não nos imaginamos a conseguir passar por situações duras e longas de atrofiamento das nossas capacidades.
Há uns anos, tive oportunidade de fazer uma semana de voluntariado com um grupo de alunas no Centro de Deficientes Profundos João Paulo II que a União das Misericórdias tem em Fátima. Recordo um rapaz totalmente paralisado, todo torcido – uma folha de papel sobre a maca – apenas os olhos manifestavam uma vida não plenamente consciente. Mas gostava de passear e divertia as raparigas lançando um grito de papagaio pelos corredores. Nesse Centro tratam os utentes de “os nossos meninos” e custa a acreditar no afecto e coragem cheia de tenacidade dessas mulheres que assistem a vidas presas na infantilidade. Um dia pus uma sala a cantar o “Apita o Comboio”. Não sabiam o que faziam; divertiam-se por um movimento simpático. Inútil? Talvez. Impressionam, chocam a assistência, surpreendem na sua capacidade de sorrir alheios às importantes preocupações dos espectadores ditos normais e saudáveis.
É mais fácil e lucrativo, mais cómodo, menos impressionante esvaziar estas instituições. Fica cada vez mais caro cuidar de um acamado. Começamos a ser poucos para aguentar uma Segurança Social de um Estado Providência. O suicídio assistido, induzido, motivado por uns familiares cansados pode ser facilmente desculpável. É já política comum nos hospitais públicos em países como o Reino Unido, para não falar da Holanda, não investir muito em pessoas com mais de 70 anos ou determinadas deficiências. Fica caro e não vale a pena. Critério económico de mera política de gestão hospitalar, perante a escassez de recursos do SNS.
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Quando o meu pai terminou o curso de medicina, o meu avô fechou a funerária e passou-a a um concorrente e assim se acabou o negócio dos mortos na família.
Opções de vida…
6/03/2009
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