segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

EDUCAÇÃO SEXUAL SEM RECEITA MÉDICA

A Catarina tem 15 anos e costuma ir à farmácia de vez em quando. Dantes comprava clerasil para espinhas e pontos negros. Agora vai comprar um antiácido, que não precisa de receita médica, porque a lógica ansiedade do evento provocou-lhe um pouco de azia e vai pedir também um antibiótico para o abcesso. O abcesso é quase tão pequeno como a sua gravidez, mas, para esse, leva uma receita que lhe foi entregue pelo dentista.
A seguir, pedirá a pílula "pró que der e vier" – assim lhe chama a sua amiga Xana, que custa quase 15 € (a Xana não, a pílula). A Xana vale muito mais, porque o seu pai tem muita massa e já comprou várias pílulas (o pai não, a Xana) para não ter de ir à farmácia, depois de estar com o Micael.
Catarina acha que "pró que der e vier " não será o verdadeiro nome do medicamento, mas a Ana, uma farmacêutica buédafixe, irá esclarecê-la.
A  Catarina está nervosa, mas contente. Graças à nova pílula será mais livre quando estiver com o seu primo Ricardo. Além disso, explicaram-lhe na escola que, enquanto o embrião não nidar, pode-se deitar fora, que é como se não existisse. E a nidação só acontece alguns dias mais tarde. Quando o professor disse isto na sala de aula, o Ruca, que é um fala-barato meio tótó, respondeu: "Isso é como dizer que enquanto o bébé não estiver no berço, não é um bébé e posso chegar-lhe". A Catarina irritou-se e disparou-lhe: "Não é a mesma coisa, Ruca, e tu és um parvo", mas todos se riram, porque sabiam que ela andava com o Ricardo.
A Catarina chega à farmácia, mas como está lá uma velha (que tem pelo menos 40 anos) a comprar qualquer coisa, pede primeiro o kompensan para a acidez e o augmentin que o dentista receitou. A farmacêutica traz todos os medicamentos e pergunta: "Queres mais alguma coisa, querida?"
Como a velha ainda não se foi embora, Catarina aproveita para se pesar e comprovar que os três gelados que comeu com os colegas a engordaram quase meio quilo. Lá se foi a velha, e então diz: "Ah, já me esquecia. Eu também quero ..., essa pílula ... para depois, percebe ...?
Ana olha-a de cima abaixo e pergunta se é para depois de comer ou para depois de se pôr cega de cocacola com uísque. A Catarina abespinha-se toda e diz-lhe que ela sabe bem do que está a falar e que tem direito à pílula chame-se ela como se chamar. Ana responde-lhe que na sua farmácia, não se vendem abortivos nem que venha a ministra com uma pistola; que o que está feito, está feito e que vai dizer ao pai dela (ao da Ana não, ao da Catarina) para que saiba o que anda a fazer a garota.
A Catarina vai-se embora com uma fúria considerável à procura de outra farmácia longe de casa onde não a conheçam. Finalmente encontra-a e dão-lhe a famosa pílula. “Só uma?”, pergunta a miúda. O farmacêutico ri-se-lhe na cara e pergunta para que é que quer mais. "Dedicas-te a isso? És uma profissional?”
Catarina tomou a pílula com um copo de Coca-Cola Light. Ela teria preferido um copo de Baylis, que é docinho, com um pouco de gelo, fica-se logo um pouquinho alegre, mas álcool não o vendem nem com receita médica.
À noite, pensa que já pode ficar tranquila, que a coisa não teve importância, porque muito provavelmente nem sequer estava grávida. E se estivesse, era uma gravidez muito pequenina e o embrião não tinha tido tempo de nidar. Claro que a Ana é uma exagerada, mas não irá dizer nada ao pai. E se disser, que diga. Porque ela tem os seus direitos, disse uma ministra muito simpática que há agora.
Catarina mete-se na cama. Sempre rezou três ave-marias, mas hoje dá-lhe uma coisa e não reza nada. Apaga a luz e começa a chorar como quando eu era pequena e não podia conseguia dormir sozinha.

Enrique Monasterio
(tradução e adaptação - Amélia Freitas)
28/05/2009

Sem comentários:

Enviar um comentário