Um amigo meu repetia esta piada de cada vez que íamos ao bar da faculdade beber o nosso cafezinho. Lembro-me disso muitas vezes, quando sinto a falta de algo, por gulodice ou para tirar o sono. Ultimamente, de cada vez que passa aquele anúncio de uma conhecida marca de máquinas de café em que George Clooney apanha com um piano em cima da cabeça. Costumo dizer que, para morrer, basta que nos caia um tijolo, mas a ele tinha mesmo que lhe cair um piano de cauda…
E lá vai o George Clooney por aquela escada branca acima com o saco da máquina de café na mão. E a seguir vem esta pérola de diálogo: “- Onde é que eu estou?” – pergunta ele ao John Malcovitch que está a fazer de S. Pedro. O pobre, de facto, nem faz ideia. Nunca se viu noutra nem teve tempo para se habituar à ideia de já estar a fazer tijolo, nem sequer reconhece aquele S. Pedro de fato branco. Desconfio que não será o único a quem lhe aconteça semelhante. Chega a ser impressionante a falta de cultura religiosa dos nossos contemporâneos. Presumem de mestrados e doutoramentos e não possuem os rudimentos de uma catequese mal amanhada. Entram num museu ou numa catedral, vão a um casamento ou funeral e, pela atitude, vê-se logo que pelas mentes paira a mesma pergunta. “- Onde é que eu estou?”
A resposta soa melhor em inglês: “ – Make an educated guess!” ou seja: “ – Dá um palpite de alguém instruído!” Pelo que, deduzo eu, até para chegar ao céu, é necessário ter alguma educação, formação, instrução sobre estas coisas da outra vida, que, entre outras coisas, será eterna. E familiarizar-nos desde já com os habitantes dessa dimensão, ganhar alguma cumplicidade…
Nestes dias dos fins de Outubro, veremos mais uma vez esse desfile de bruxinhas, fantasminhas, vampirozinhos, monstrinhos e demoniozinhos que, para além de introduzirem mais um carnaval de inverno importado e de contribuírem para o comércio local, servem, segundo se justifica nos objectivos da actividade, para exorcizar os medos das criancinhas. Parece que se pretende vencer o medo da morte, mas não vejo ninguém a levar os meninos aos funerais e ao cemitério, apesar de nestes dias serem autênticos jardins. Não seria muito mais interessante falar-lhes dos seus antepassados, dos familiares, dos santos ou dos anjos que vivem felizes “nos esplendores da luz perpétua”?
O George Clooney também achava que ainda era cedo para morrer. A sua sorte é que tinha acabado de comprar uma máquina de café e o S. Pedro lá concedeu aquele arranjinho da troca da dita por mais algum tempinho de vida cá na terra. Não perdeu pela demora: veio outro piano. A verdade é que nenhum de nós está livre de que lhe caia em cima da cabeça o piano, o tijolo ou até o céu do Astérix. Por isso, das duas, uma: ou trazemos connosco a máquina do café ou convém ter as malas feitas, isto é, ter umas amizades lá por cima.
22/10/2010
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