segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

KZ, a Liberdade e os balneários

Devo dizer, em jeito de advertência, que as considerações que se seguem ficaram guardadas durante uma semana pelo seu teor polémico, mas pensei, por fim, que deviam vir à luz estando nós num ano dedicado à Igualdade de Oportunidades.
KZ é o título de um documentário emitido na RTP2 no passado dia 23 de Abril a propósito do último dos campos de concentração nazis a ser libertado. Vi pouco, é preciso dizer a verdade. Embora o objectivo seja preservar a memória, estes programas sobre o Holocausto cansam. À força da repetição do horror, a sensibilidade habitua-se até à indiferença e ao tédio. Ainda apanhei a reconstituição da entrada dos prisioneiros no campo. Eram-lhes retirados os seus pertences, toda a roupa e seguidamente deviam dirigir-se ao banho, completamente nus, em fila, ao ar livre e com temperaturas negativas. É preciso acrescentar que vinham de uma viagem longa, sem quaisquer condições ou meios de higiene. Para além do objectivo próprio do banho, este protocolo constituía a 1ª das humilhações, forma de os deixar indefesos e conscientes da sua impotência perante os agressores, de lhes arrebatar os sinais da própria identidade. O banho era comum, numa sala com chuveiros no tecto por onde umas vezes saía água gelada, outras o tal gás KZ que matava toda aquela multidão angustiada.
A todos nos impressiona, creio, o gesto indefeso das figuras nuas esquálidas, tentando tapar-se a todo o custo perante os olhares inquisidores dos soldados nazis. Choca-nos talvez pela gratuitidade de mais este sofrimento infligido, pela humilhação, pela negação de um mínimo de privacidade, pela anulação de qualquer assomo de personalidade, substituída pelo número gravado no braço.
Pois bem, com alguma distância, a história repete-se no nosso quotidiano sem nos darmos conta, sem nos revoltarmos ou resistirmos à prepotência de situações consumadas.
Esta semana foi a 3ª adolescente que se veio queixar de que a obrigavam a tomar banho nua, juntamente com as colegas, depois das aulas de Educação Física. Devo dizer que esta menina é de V.N. de Famalicão e tem 11 anos; as outras duas têm 15 e 13 e frequentam estabelecimentos de ensino de Barcelos e Riba d’Ave, respectivamente. Os procedimentos repetiram-se com as três: queixaram-se aos pais, dizendo que não gostavam de ser avaliadas no seu corpo e suas transformações próprias da idade pelas outras meninas e se não podiam lavar-se em casa. O problema não era a necessidade de higiene, que todos prezamos como necessária, em especial após os esforços da ginástica, mas a falta de condições de privacidade.
Acontece que os balneários destes estabelecimentos de ensino – não se percebe porquê – há uns anos a esta parte são constituídos por uma sala de chuveiros, com água quente, é certo, mas sem qualquer divisória, porta ou cortina. Ou seja, em tudo semelhantes aos do documentário KZ, se é que me faço entender. O mesmo se passa com o vestiário. Porquê?
Dizem que na educação do pós-25 de Abril se aboliram os tabus, que não se deve prestar atenção a meninas púdicas ou pais complacentes e atrasados, mas….que é feito do direito à diferença? Tornou-se tabu reivindicar o direito a não expor o próprio corpo a olhares indiscretos, o direito à intimidade, à sensibilidade? Esqueceu-se que o corpo é expressão da pessoa e que a sua exposição forçada se assume como violação humilhante?
Entretanto, é imperioso respeitar escrupulosamente as normas europeias que exigem não publicitar os dados pessoais, sacrilégio não prever as sensibilidades de muçulmanos, gays e passarinhos. Atenção, que considero essas normas sinal de progresso e uma necessidade, como é, por exemplo, a eliminação das barreiras arquitectónicas para os deficientes. Pergunto-me é porque é que não se defende o mesmo tipo de atitude relativamente às crianças, adolescentes e pais que requerem um tratamento que todos exigimos nos ginásios privados, nos hospitais privados, nos lares de 3ª idade, nos hotéis…Sabiam que, nestes locais, o respeito do direito à privacidade é índice de Qualidade e a falta dele está classificada nos Manuais publicados pela Segurança Social como sinal de violência infligida aos utentes?
A razão não é económica, já que umas divisoriazitas não têm assim um preço tão elevado. Os pais das adolescentes que referi foram falar com os directores de turma com o objectivo de conseguir autorização para as filhas irem tomar banho a casa. A resposta foi negativa e prepotente: o banho é obrigatório e se não o tomarem no balneário da escola têm falta injustificada a Educação Física. Razões de disciplina. Pelos vistos, se houvesse excepções, muitas meninas imitariam a atitude das citadas…
Espanta-me é que num contexto de Educação Sexual actualizada se não repare que, perante a necessidade imperiosa de evitar a SIDA e as gravidezes indesejadas de adolescentes, todos os meios que contribuam a atrasar o início de uma vida sexual activa se hão-de considerar válidos. Inclusive o dar voz ao desejo natural de pudor manifestado por umas meninas, representantes de uma suposta minoria.
Afinal, somos ou não somos um País Livre?

3/05/2007

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