sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ENTRE O TABU E O SUCESSO: OS RAPAZES FICAM PARA TRÁS?!

         Esta quarta feira, dia 14, pelas 18.30, na Livraria Centésima Pagina, em Braga, será lançado pela Editora Papiro o meu livro “Entre o Tabu e o Sucesso – O caso da Educação Diferenciada por Género”, resultado de uma investigação qualitativa em colégios com este tipo de organização escolar.
Quando recentemente saíram os Rankings do Ensino Básico e Secundário, apenas uma figura me chamou a atenção pela falta de comentários. A que dizia respeito à diferença de resultados entre rapazes e raparigas. Algo de que pouco se fala. Politicamente incorrecto. Supostamente, não há-de haver diferença. E se a houver, toda a gente sabe que as raparigas são melhores a Letras e os rapazes a Matemática e Ciências. Compensa.
Mas não é bem assim. Pelo que as estatísticas portuguesas e europeias demonstram, quer no Básico, quer no Secundário, quer em Letras, quer em Matemática, os rapazes ficam para trás. Pouca diferença na Matemática. Bastante em Português. Maior ainda no Secundário.
Poder-se-ia tratar de um problema do ranking, mas não. De facto, desde os anos 90, os relatórios PISA evidenciam um fenómeno de desigualdade verdadeiramente preocupante: em todos os países da OCDE, os gráficos mostram que os rapazes obtêm resultados inferiores aos das raparigas, em leitura e escrita, base da aprendizagem, em todos os parâmetros analisados (leitura, interpretação, compreensão de textos contínuos e não contínuos)(OECD, 2010). No caso da Matemática e das Ciências, praticamente não existe desigualdade entre os sexos na maioria dos países da OCDE, Portugal incluído. Já, se fizermos uma busca nas estatísticas do Ministério da Educação sobre abandono e insucesso no ensino básico, são novamente os rapazes a ficar em desvantagem (GEPE/ME, 2009).
Pouco se tem investigado sobre as diferenças de aprendizagem relacionadas com o género, as suas causas e as estratégias pedagógicas para lhes fazer face. Os sociólogos da educação têm estado mais interessados na "reprodução" das desigualdades sociais na escola, relegando para segundo plano a variável "género", o que não foi propício à investigação. Pierre Bourdieu, por exemplo, sugere em "Les Héritiers" que a desvantagem escolar vinculada ao género teria menos impacto do que a de origem social, convicção que se generalizou. Como ficou claro pelo Relatório Coleman, de 1966, os sistemas educativos baseiam-se num modelo cultural desenhado por determinados grupos sociais, deixando em permanente desvantagem aqueles que não pertencem a esses grupos e acentuando-se o fenómeno com a crescente multiculturalidade das nossas escolas.
Há quem diga que a escola se tornou feminina: as professoras são a maioria, os modelos, a visão, as atitudes necessárias de disciplina, obediência femininos também. Até os horários lectivos de 90 minutos estão feitos para raparigas. Os professores parecem querer os rapazes assimilados às raparigas, desenvolvendo pouco os métodos activos, os desafios e a competitividade. Rapazes e raparigas, tendencialmente, manifestam características e desenvolvimentos diferentes. Particularmente, durante a infância e adolescência, as raparigas costumam ser mais precoces, amadurecer mais cedo, sensivelmente 2 anos antes dos seus colegas. O sistema de avaliação não tem em conta este ritmo de desenvolvimento físico e psicológico próprio dos rapazes. Adrenalina confunde-se com hiperactividade; a tolerância majorada enquanto valor escolar relega e reprime qualquer manifestação de agressividade. É mais fácil organizar uma escola tendo em conta as idades cronológicas, mas será que bastará para a sua eficiência?
Por esta razão, países como a Alemanha, a Bélgica e os EUA, entre outros, decidiram promover a opção de Educação Diferenciada por género também no ensino público como ferramenta pedagógica. Assim, por exemplo, nos EUA, desde 2006, cerca de 500 escolas estatais introduziram este tipo de organização, quer separando os sexos por edifícios, quer por turmas ou apenas por disciplinas. Não foram apenas os resultados académicos que melhoraram, mas também a sua equiparação no que respeita ao género, em Letras e Ciências, a auto-estima, a participação e colaboração dos alunos e alunas, a vontade de superar o secundário.
Em Portugal, falar de Educação Diferenciada é praticamente tabu. Também não se trata de pôr em causa a Coeducação que, há 40 anos atrás, ofereceu às raparigas o acesso à escola. Mas verificar que o género conta numa sala de aula e na organização curricular. Faz falta aprender mais, investigar seriamente as estratégias que possam levar rapazes e raparigas ao mesmo sucesso.  
Bibliografia
GEPE/ME (2009). 50 anos de Estatísticas na Educação (Vol. 1). Lisboa: GEPE/ME / INE.
OECD (2010). PISA 2009 Results: What Students Know and Can Do (Vol. I). Paris: OECD Publishing.


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